Palavra Socialista


Um prêmio ao Império

Guantánamo não foi desativada. O embargo a Cuba permanece. O golpe militar e as subseqüentes perseguições contra ativistas e opositores em Honduras foram legitimados, sob o argumento de que ocorreram eleições, as quais, omite-se, experimentaram até 65% de abstenção e restaram promovidas por golpistas. Israel prossegue com seus assentamentos e não há objeção qualquer. Mais 60.000 jovens, provavelmente negros e filhos de migrantes, serão enviados à morte no Afeganistão, onde, aliás, matarão civis inocentes. E o Nobel da Paz segue para Obama, o artífice de todos esses vilipêndios. O nome que identifica o prêmio se trata de óbvia elipse, haja vista apontar para a Paz... Dos Cemitérios.



Escrito por Socialista e Democrático às 20h25
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Encontro Mineiro dos Atingidos pela Vale

A Companhia Vale do Rio Doce representa, de um modo mais do que simbólico, dado o volume e o modo como ocorrem as respectivas operações, a lógica econômica colonial prevalecente neste país, ancorado na exportação de minério e produtos da monocultura estruturada em latifúndios. A maneira como a empresa foi privatizada, seu domínio estratégico sobre riquezas do subsolo nacional e sobre as ferrovias, além dass nefastas condições de trabalho que impõe aos respectivos operários, são alguns signos do modo como essa companhia despreza o povo, o meio ambiente e o ordenamento jurídico do país. Abaixo, divulga-se mensagem, recebida da companheira Fernanda Oliveira, em que é convocado o Encontro Mineiro dos Atingidos pela Vale. Recomenda-se, a propósito, a leitura da obra "Vale: nem tudo o que reduz é ouro", organizada por Nazareno Godeiro e publicada pela editora Sunderman (para comprar, clique aqui: http://loja.tray.com.br/loja/produto-46909-1144-Vale_do_Rio_Doce_Nem_tudo_o_que_reluz_e_ouro)

 

I Encontro Mineiro dos Atingidos pela Vale

 

No dia 28 de novembro será realizado em Belo Horizonte o I Encontro Mineiro dos Atingidos pela Vale. A proposta desta atividade é reunir e dar voz às comunidades afetadas pela Companhia Vale do Rio Doce em Minas Gerais.

A Vale iniciou suas atividades no Brasil e hoje é a responsável por um legado de destruição social e ambiental registrado em vários municípios de Minas Gerais. Os bens naturais disponíveis no estado e a exploração da mão-de-obra são as fontes da riqueza dessa empresa que está presente nos cinco continentes do mundo. Os resultados dessa ganância são os graves impactos identificados sobre o meio ambiente e a vida das pessoas.

Progresso econômico para os municípios, geração de emprego, responsabilidade social e desenvolvimento sustentável fazem parte da campanha publicitária vinculada pela empresa para convencer comunidades e trabalhadores a aceitarem a mineração, mas o que a realidade comprova é a acentuação de conflitos sociais, econômicos e ambientais que modificam a qualidade de vida das pessoas.

As desapropriações forçadas, a terceirização com as perdas dos direitos trabalhistas, os constantes acidentes de trabalho, a contaminação e o rebaixamento do lençol freático e a perda da biodiversidade são exemplos de degradações ocasionadas pela mineração.

Apesar das demissões ocorridas entre 2008 a 2009 sob o argumento da crise econômica mundial, a empresa segue com os pedidos de licenciamento ambiental - mantendo altos investimentos - para abrir novas lavras em locais ainda preservados como é o caso da mineração pretendida na Serra da Gandarela, contribuinte do abastecimento de água da Região Metropolitana de Belo Horizonte.

Desde a privatização ocorrida em 1997, trabalhadores e comunidades vêm sendo prejudicados pela ganância desta grande empresa capitalista. Os bens naturais do solo brasileiro devem ser patrimônio do povo e não dos acionistas da Vale! É preciso que o governo federal anule o leilão de privatização - que foi ilegal - e patrocine a reestatização da Vale.

 

Diante dos conflitos estabelecidos, o Comitê Mineiro dos Atingidos pela Vale, convida: populações, comunidades, trabalhadores, estudantes, professores, movimentos sociais, movimentos sindicais, organizações ambientalistas, pastorais, associações comunitárias, igrejas e todos os mineiros a somarem forças contra as degradações sociais, ambientais e econômicas cometidas em Minas Gerais

 

Participe do I Encontro Mineiro dos Atingidos pela Vale, pois o que vale é a vida!

 

Você sabia que a Vale:

 

-         Atua em 12 Estados brasileiros e detêm direito de lavra de 23 milhões de hectares o que corresponde aos estados de Pernambuco, Alagoas, Sergipe e Rio Grande do Norte;

-         Nos onze anos que se seguiram à privatização seu lucro líquido cresceu 29 vezes;

-         Seu valor de mercado passou de US$8 bilhões para US$125 bilhões;

-         Que sob o argumento da crise econômica mundial a empresa demitiu cerca de 4 mil trabalhadores diretos e 15 mil terceirizados;

-         Que a Vale consome, sozinha, 5% de toda energia elétrica do Brasil;

-         Que as famílias brasileiras pagam por 100kwh/ mês mais de R$50,00 e a Vale paga pelos mesmos 100Kwh/ mês cerca de R$3,30;

-         Nos últimos 12 meses a empresa gastou R$178,8 milhões em propaganda para enganar comunidade e trabalhadores com o falso discurso de desenvolvimento sustentável;

-         Trabalhadores e comunidades de várias partes do mundo são explorados por essa empresa;

-         Os trabalhadores do Canadá da Vale Inco estão em greve há mais de cinco meses por melhores condições de trabalho e melhores salários;

-         A Vale está em Moçambique desde 2004 e seu plano de minerar lugares atualmente habitados e agricultáveis vai obrigar um elevado número de famílias a abandonar suas terras e casas.



Escrito por Socialista e Democrático às 23h07
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Alterações na lista de links (ou Nassif e PHA como a nova imprensa chapa branca)

Este blog decidiu retirar de sua lista de links (à direita) os elos referentes às páginas de Paulo Henrique Amorim e Luis Nassif. Aquele há muito perdeu a capacidade de produzir textos com algum sentido e enveredou-se por um governismo extremo, que o permite ser classificado como Reinaldo Azevedo de sinal invertido. Este, ainda que sob mínima sofisticação, não demonstra independência suficiente diante do Governo Lula e acentua seu caráter acrítico a cada dia. Ora, textos de má qualidade já eram uma constante nas duas páginas em questão mas, por se acreditar, talvez de modo pouco cuidadoso, que se tratavam de espaços contra-hegemônicos na mídia deste país, fazia-se sua indicação neste espaço. Contudo, texto precário e discurso chapa branca são razões mais do que suficientes para que os meninos de recado da Casa Civil não encontrem, doravante, a chancela desta página.



Escrito por Socialista e Democrático às 17h31
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Há vinte anos quedava-se o muro do vergonha...

Caiu o Muro de Berlim há vinte anos e, ali, uma veemente recusa à burocratização da vida humana, à restrição das liberdades coletivas e individuais e à traição do projeto socialista teve lugar. Os marxistas foram os primeiros a combater os vícios da burocratização e os primeiros a dissociarem socialismo das tiranias de inspiração stalinista. Seja em "A Revolução Traída", publicada por Trotsky ainda na década de 30 do século XX, seja nos estudos da Teoria Crítica, nos escritos de Gramsci, ou mesmo de Lukács, os mais consistentes opositores daquilo que, mais tarde, seria definido por Habermas como "colonização do mundo da vida pelo sistema do Estado", são egressos do marxismo. O próprio colpaso econômico dos regimes inspirados na burocracia soviética se deve, precisamente, ao que há de alheio ao socialismo naquelas conformações econômico-políticas, como a manutenção ad infinitum do trabalho remunerado por peça, a tese do socialismo em um só país e o controle da inovação por uma diminuta e auto-interessada casta dirigente do aparato estatal-partidário. É de se celebrar, pois, em nome do socialismo, essa efeméride.

Mas a liberdade, contudo, ainda não foi conquistada no leste ou nestas paragens. Se a stasi controlova minuciosamente a vida dos indivíduos na Berlim oriental, hoje celulares, blackberries e toda sorte de dispositivo atrelam o trabalhador à eterna disponibilidade - e controle - por seus patrões. Se nada podia ser dito ou expressado em desagrado à tirania no controle do Estado, agora nada vem a público, senão convertendo-se em mercadoria e degenerando-se em mecanismo ensejador de acumulação de recursos. Ontem, as pessoas saiam as ruas e não podiam conversar livremente, debater, viver a vida. Hoje, saem e encontram espaços privatizados, onde tudo o que lhes resta é comprar-consumir ou trabalhar. Ainda não há liberdade e por ela devem se levantar os socialistas!

Que caia o Muro de Tijuana!

Que caia o Muro de Israel!

Que caiam os Muros das Favelas Cariocas!

Que a humanidade possa viver livre da dominação burocrática, mas igualmente livre da reificação imposta pelo regime do capital.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 12h41
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Um ano de Obama: "so, what?"

Completa-se hoje um ano da eleição de Obama à presidência estadunidense. Democrata, negro, neto de fiéis do islã e respaldado por um sentimento de revolta contra a catástrofe econômica permitida - e, em certa medida, engendrada - pelo governo Neocon de Bush, o atual presidente dos Estados Unidos da América tem decepcionado aqueles que acreditavam em frases tão fortes quanto distantes do atual comando da Casa Branca, como "Change, we need", ou "Yes, we can". Confira-se:

1) As tropas estadunidenses permanecem no Iraque e, quanto ao Afeganistão, foram significativamente reforçadas, mantendo-se, assim, a lógica do "clash of civilizations" como abordagem das tensões geopolíticas contemporâneas.

2) Bancos e demais financistas receberam valores maiúsculos do tesouro estadunidense - algo como um PROER exponencialmente majorado - sem que significativas contrapartidas ou prescrições regulatórias acompanhassem as benesses. Como resultado, há uma bomba relógio fiscal na primeira economia do mundo e rearmou-se o cassino especulativo dentre instituições financeiras, como se a crise deflagrada em 2008 nada tivesse a ensinar ou já se encontrasse definitivamente superada.

3) O emprego, especialmente industrial, continua em queda nos EUA. Assim, não é exagero constatar que Obama focou seu mandato, até aqui, em salvar o capital, impondo, desse modo, sacrifícios gravosos aos trabalhadores daquele país.

4) A decepção dos cidadãos com uma mudança que não se efetivou já se reflete em problemáticos resultados eleitorais: a vitória dos republicanos para o governo de New Jersey e a terceira eleição do magnata Bloomberg para a prefeitura de NY (curioso, aliás, como a grande mídia global nada diz sobre esse terceiro mandato...), permitem a identificação de uma tendência à volta dos conservadores à maioria legislativa no próximo ano, o que, sabe-se, seria problemático, senão explosivo.

Onde a mudança? Onde a virada histórica? Um ano se passa daqueles momentos de euforia e, até aqui, apenas banqueiros ou a indústria bélica encontram razões para celebrar.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 15h41
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A banalização da violência como semente do totalitarismo

Não! Não se vive neste país em uma poliarquia. Não se pisa sobre solo democrático e respeitador dos direitos civis, a caminhar na trilha suave e inclusiva da modernidade ocidental. Poliarquia, aliás, é um eufemismo para escamotear o contraditório Estado liberal, onde a dominação aliena e reifica o que deveriam ser sujeitos autônomos, racionais e iguais. A modernidade ocidental, cuja aurora feroz tão bem identificou J. Chasin, longe está de alcançar seus propósitos emancipadores e, ao menos enquanto restar submetida a relações de dominação mediadas pela categoria capital, terá de ser associada a um "projeto inacabado". Com efeito, aqui, na periferia, "certo ocidente", "extremo ocidente", região dependente,  tudo é peculiarmente dramático.

É aqui que uma turba de centenas de jovens estudantes persegue uma pessoa humana e organiza profana procissão do culto de barbárie machista. É aqui que um vestido curto enseja atos de humilhação, execração pública... Terror. De modo igualmente dramático, é neste país, onde se diz que o machismo estaria superado ou minorado, que até mesmo as manifestações de solidariedade à vítima da catarse neo-fascista na Uniban tendem a se revelar homofóbicas, ou a reproduzir, com outra sintaxe, o idioma da violência de gênero.

Contam-se aos milhares os comentários em sítios como youtube que objetam a crueldade perpetrada contra uma aluna humilhada em decorrência de um vestido curto, que se expressam em sentenças como "ora, o que é bonito é para ser mostrado...", ou "apenas gays não gostam de vestidos curtos". Em suma, entre os agressores covardes e muitos (quase todos) dos seus opositores, um traço sociológico permanece constante: a intolerância, a redução da mulher à categoria de objeto ou, sob o mesmo ethos de banalização da violência, a homofobia. O evento ocorrido na Uniban não se trata de um episódio atípico ou raio de céu azul em um país civilizado e democrático. 

Segundo dados repassados à redação deste blog pela Profa. Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher - NEPEM, da UFMG, mencionando informações do Global Gender Report "Brasil cai 15 posições de 2006 para cá, no auge do governo Lula. World Economic Forum divulga The Global Gender Report 2009, analisando a desigualdade entre homens e mulheres em 134 países. Brasil fica em 82ºlugar, quase igual à Bolívia, perde para os países da América do Sul e amaior parte da América Latina além de Filipinas, Lesotho, Sri Lanka,Mongólia, Namíbia, Uganda, Gâmbia, Gana. Em 2006 estava em 67º, em 2007estava em 74º e em 2008 em 73º." É o país onde, segundo informa o jornalista Juca Kfouri, o governador do Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, teria agredido a namorada em público.

É o mesmo país onde os presos continuam a ser, sistemática e institucionalmente, torturados. É o país onde um genocídio de pobres tem lugar, como demonstram os recentes episódios em favelas cariocas. Estamos em guerra. A classe média entediada e a burguesia cruel parecem não conceder tréguas no extermínio dos pobres, na sujeição das mulheres, na exclusão de negros e homossexuais. Mata-se como se mata em um regime totalitário. Humilha-se como se humilha onde há apedrejamentos. Tortura-se como se tortura sob ditaduras. E cala-se a mídia contrária ao governante (vide Minas Gerais) como são calados os divergentes em regimes de exceção.A banalização da violência e a negação da condição de sujeito ao outro são o embrião do totalitarismo que, ao menos neste lugar, parece encontrar terreno adequado para crescer.

 

 

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 01h24
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O Prouni e o clientelismo: como o governo financia, a um só tempo, empreśarios do ensino e ONG´s oportunistas.

Uma prática já identificada neste blog, quanto à cidade de Belo Horizonte, parece se projetar em outras localidades do país. Trata-se da compra de supostos militantes para pretensos movimentos sociais, mediante a oferta de bolsas acadêmicas em instituições particulares de ensino superior. O dado estrutural que tal conduta evidencia é a tríplice natureza nefasta do Prouni:

a) aplica-se receita de tributos - mediante exonerações - no ensino privado, de modo a se precarizar, ainda mais, a educação pública, custeando-se com dinheiro dos trabalhadores (dada a regressividade do sistema fiscal brasileiro) o lucro de grandes empresários do ensino;

b) falsficam-se estatísticas de universalizaçao do ensino superior, por meio da inclusão de pessoas em cursos onde se distribui apenas uma titulação formal, alheia a qualquer processo acadêmico minimamente consistente, mesmo que avaliado sob a restrita lógica da capacitação de mão-de-obra e;

c) abre-se uma possibilidade para que, em conluio com ONG´s  nada ilibadas, proprietários de instituições de ensino alimentem uma máquina clientelista que conduz à domesticação de movimentos sociais no país.

Em suma, trata-se de política, implementada no Governo Lula, triplamente lesiva aos trabalhadores, por atacar seus recursos, o direito à educação e a auto-organização do povo, uma vez que até mesmo movimentos outrora relativamente autônomos acabam por ceder, conduzidos por irresponsáveis direções, ansiosas por qualquer aumento no contigente de militantes,  à oferta de vagas como contrapartida de adesão política.

Confira-se, abaixo, o exemplo paulista da prática de compra de militantes por meio do PROUNI, já sedimentada em BH desde o ano de 2008: http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2009/06/01/ult5772u4186.jhtm.



Escrito por Socialista e Democrático às 23h24
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Carta Aberta às/aos Amig@s e Companheir@s

Caríssim@s Companheir@s e amig@s,

Desde a queda dos regimes stalinistas ao final do século XX, um vendaval oportunista assolou o que de mais precioso se edificou em toda a modernidade ocidental, é dizer, as organizações independentes dos trabalhadores, sem as quais os desígnios de emancipação social, autonomia, razão e liberdade jamais podem se tornar realidade histórica, condenando-se eternamente à precária condição de promessas enganosas, elegantemente definidas pelo cinismo da filosofia liberal como horizontes regulativos.

O fim das tiranias conduzidas pelas burocracias coincidiu com um sério descrédito do projeto de uma sociedade socialista, ao tempo em que capitalistas e antigos ativistas da esquerda coincidiram em, menos por ingenuidade e mais por oportunismo, propagar duas errôneas lógicas, quais sejam:

a) a de entender que o ocaso de um projeto revolucionário na antiga URSS implicaria, por inferência indutiva, o malogro de qualquer tentativa histórica de superação do capitalismo, de tomada do poder pelos trabalhadores e de implantação do modo de produção socialista, expressando-se, assim, uma delirante metodologia da história, segundo a qual um caso empírico permite a formulação de uma regra atemporal e;

b)a de atribuir-se aos regimes burocráticos não apenas a equivocada caracterização de Estados Socialistas, como a exclusividade do referido predicado, de tal arte que se associou inarredável e absolutamente o socialismo ao stalinismo, como se de significante (socialismo) e de significado histórico (stalinismo) se tratassem. Derrotado o modelo em comento, antigos PC´s, social-democratas e até mesmo muitos auto-proclamados trotskistas abdicaram da luta por uma sociedade em que não haja dominação da humanidade pela humanidade e se enclausuraram nos aparatos do Estado, dos sindicatos e das ONG´s.  Todos nós conhecemos aos menos uma dúzia de pessoas que, outrora militantes, hoje são gestores comissionados de políticas públicas, assessores semi-vitalícios de sindicatos, executivos de ONG´s ou redatores de projetos para captação de recursos junto ao Estado ou ao mercado. Enquanto isso, a renda se concentra, a finança se mundializa, a repressão se exacerba e muitos, outrora camaradas na luta contra tais ataques, dão de  ombros e buscam se adaptar à mais nova forma de acumulação privada e exploração do trabalho, a atender pelo nome de terceiro setor. Mas nem tudo é desolação...

Há um partido que ainda sustenta a necessidade de internacionalização da luta dos trabalhadores e sabe que, tendo em vista a derrota histórica da doutrina do socialismo em um só país e a necessidade de enfrentamento global contra ofensivas do capital apátrida, se constitui como seção brasileira de uma organização internacional.

Há um partido que, coerente com o materialismo histórico e com o aforismo marxiano de que "a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores", não se financia por projetos ou convênios, mas mediante a contribuição daqueles que se identificam com seu programa.

Há um partido que conhece a história e sabe que pouquíssimos na esquerda objetaram o stalinismo, mas foram imprescindíveis na preservação do marxismo.  Há um partido que compreende que muitos não anteviram o colapso da social-democracia, dado seu caráter estruturalmente capitalista e afeito à acumulação privada, mas que jamais se isentou de denunciá-la.  Há um partido que não ignora que, desde as Guerras de Independência até a doutrina da aliança com uma certa burguesia nacional, poucos foram os que, em nosso subcontinente, resistiram ao canto sedutor, mas enganoso, dos caudilhos e líderes carismáticos, cuja atuação não se submete à democracia operária e cujas trajetórias não se forjam nas lutas sociais. Há um partido que, mesmo temporariamente minoritário no âmbito da esquerda, preserva sua responsabilidade diante dos trabalhadores e se nega a semear ilusões.

Há um partido que não se proclama dono da verdade ou única força em favor da superação do capitalismo, mas que apresenta suas contribuições e se engaja em cada tarefa, por mais simples que seja, na resistência contra a exploração e no avanço rumo ao socialismo. Não se trata de um clube intelectual, tampouco de uma seita. É um partido que se vê nas greves, nos atos públicos, nas ocupações estudantis, nas assembléias fabris, nas ações diretas e nos protestos.

Há um partido que ainda cultiva a moral proletária e, assim, não poupa sequer seus altos dirigentes quando se trata de assegurar, a qualquer custo, princípios como a igualdade de gênero, a independência perante o Estado e a defesa intransigente dos trabalhadores e da independência de suas organizações.

Há um partido que pode dizer aos trabalhadores do Haiti que está ao lado de suas lutas, haja vista que, no Brasil, se opõe ao governo que os oprime militarmente. Há um partido que não se associa às oligarquias argentinas, em arroubo esquerdista, de modo a defender os que têm fome contra os lock-outs do agronegócio sojeiro.

Há um partido que se empenha, junto a outros companheiros, na construção de uma central sindical cuja recente formação não a impede de se constituir como ponto de apoio daqueles que resistem às demissões na Embraer e na Vale, e de todas e todos os que sabem que, para além das burocracias sindicais atreladas ao governo, há uma legião de pessoas sinceras em busca da autônoma construção de alternativas à  grave crise econômica ora a assolar a humanidade. Há, igualmente, um partido que se engaja na reconstrução do movimento estudantil, para além do irrecuperável atrelamento da UNE à máquina governamental.

Há um partido que respeita a democracia interna, tão esquecida em tempos de vendaval oportunista e, a um só tempo, sabe da importância de se atuar disciplinada e unitariamente contra os seus inimigos, o que também anda pouco presente em tempos de apologia do suposto pluralismo de ações que, de fato, só produz historicamente a esterelidade das práticas de resistência social. Não é o partido em que os militantes são amordaçados e, precisamente por isso, também não é o partido em que tudo vale e em que cada qual age isolada ou indisciplinadamente.

Há, ainda, um partido socialista, revolucionário,  jamais corrompido pelo stalinismo ou pela social-democracia, organizado segundo a democracia operária, auto-financiado e internacionalmente constituído com vistas à reconstrução da IV Internacional e à emancipação de todos os trabalhadores do mundo.

Hoje me filio e inicio minha militância nesse partido, o PSTU, seção brasileira da Liga Internacional dos Trabalhadores - LIT-QI. O faço com muita alegria e orgulho e, permitam-me dizer, com a convicção pessoal de que, finalmente, estou em casa, estou entre camaradas! Convido cada um de vocês a conhecer a atuação do PSTU, a discutir o respectivo programa e, caso assim entendam, a se somarem nesta imprescindível luta por um mundo sem dominação.

Saudações marxistas,

Franck

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 01h48
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Jose Martí: uma referência universal para os oprimidos. Parte I

José Martí não é apenas uma figura relevante no contexto das artes, da história política ou do pensamento latino-americano. Trata-se, em verdade, de líder revolucionário, poeta, ensaísta e teórico cujo significado se comunica a toda a humanidade e o permite equiparar-se às principais referências do pensamento ocidental. Martí anteviu o imperialismo, posteriormente tão bem diagnosticado e denunciado por Lênin. Em polêmicas com um líder independentista cubano, o general Gómez, sustentou, chegando a se isolar politicamente por certo ínterim, a primazia da liderança política sobre a militar, de modo a se evitar o fenômeno do caudilhismo. O que disse Martí (então minoritário ou mesmo isolado) para o General, hoje se pode dizer a dirigentes de índole caudilhista-bonapartista como H. Chavez: "Um povo não se funda, general, pelos métodos com que se manda em um acampamento". A iminência do capitalismo monopolista fora antevista e rechaçada por Martí. A origem nada igualitária ou livre do constitucionalismo estadunidense, ancorado sobre o extermínio de indígenas e a escravização dos negros, permite que sejam identificados signos de ingenuidade no alumbramento de autores como H. Arendt e J. Habermas em relação à fundação daquele país. As defesa de que há uma só humanidade, para além de raças e discriminações congêneres, bem como de que o conflito social entre trabalhadores e proprietários tenderia a definir as lutas dos tempos vindouros pautou, com caráter quase profético, os escritos do pensador. Martí sabia que, assim como a independência de Cuba perante a Espanha, era  tarefa fundamental conter-se a expansão imperialista estadunidense. Nesse sentido, influenciou a primeira fase dos revolucionários cubanos, para quem a ruptura com o domínio dos EUA  intermediado pelo ditador Fulgencio Batista, não poderia significar uma nova subjugação, desta vez pela burocracia soviética. Abaixo, oferece-se um fichamento de pequena fração da obra de um pensador tão relevante e, paradoxalmente, tão esquecido:

 

 

Notas de Textos Extraídos de José Martí e de Comentários à Respectiva Obra

  • Martí exerceu considerável influência sobre a revolução cubana e, igualmente, sobre os documentos políticos e normativos conformadores do Estado socialista advindo do referido processo de ruptura política.

  • O pensamento de Martí se define por patente e impressionante extemporaneidade, o que se evidencia no fato de permanecer subversivo um século após sua morte.

  • Martí é uma referência ímpar e de arraigada expressão nas artes e no pensamento humanístico hispano-americano, conforme se infere do fato de ser admirado, por exemplo, por Darío, Reyes e Mistral.

  • José Martí nasceu no ano de 1853, época em que coexistiam pensamentos críticos à condição da colônia cubana, como, por um lado, o de Delmonte que, em Madrid, preconizava que os problemas de Cuba não seriam sanados por meio de uma separação perante a Espanha, mas mediante reformas que atribuíssem autonomia à ilha e mais equânime integração com o colonizador europeu; e, por outro lado, o de Félix Varela um presbítero que, na Flórida, defendia a efetiva independência da ilha. A tese independentista, aliás, teve como pioneiro adepto Antônio Aponte, um artesão negro que fora executado em 1812.

  • Em suma, integravam o ambiente de crítica à Espanha, à época em que nasceu José Martí, as seguintes teses: a) Independência (Varela); b) Reformas, sem independência (Delmonte) e; c) Anexação aos Estados Unidos (sustentada pelo Venezuelano Narciso López).

  • Notas biográficas sobre José Martí: filho de humildes espanhóis que migraram para Cuba, umas das últimas colônias remanescentes da Espanha. A principal influência do pensador foi Rafael Maria Mendive, um professor, poeta e diretor de escola, cujo papel em relação à formação de Martí se definiu como algo análogo ao de um preceptor. Um dado impressionante acerca do precoce talento intelectual de Martí é o fato de que, aos treze anos, o autor já traduzira Byron e iniciara semelhante trabalho com Hamlet.

  • Martí, ainda aos 15 anos, adere à chamada “Revolução de Yara”, um movimento independentista, em 1868. O autor escreve poemas e ajuda a editar revistas independentistas. À época, Mendive tem seu colégio fechado, é preso e deportado.

  • Em 1870, Martí é preso em razão de ter redigido uma carta em apoio à independência de Cuba. Afinal, em 1871, Martí segue para a Espanha;

  • Na Espanha, entre 1871 e 1874, Martí estuda direito, filosofia e letras. Da Espanha, segue para França, México e Nova Iorque. Em 1878, durante uma trégua da guerra dos dez anos, Martí tenta voltar definitivamente a Cuba, mas, em 1879, é deportado para a Espanha.

  • Entre 1881 e 1895 o pensador se fixa em Nova Iorque, o que, destarte, o influencia significativamente. As constantes viagens de José Martí conformaram, em apertada síntese, as seguintes influências: a) Espanha: o país influenciou Martí a partir de seu povo, seus costumes e, muito especialmente, da certeza quanto à alteridade em relação à América Latina; b) A. Latina: ao viajar por outros países da Hispano-américa, Martí identifica uma unidade em relação a Cuba que, posteriormente, lhe permitirá cunhar a idéia de uma “Nossa América”, em oposição à “América Européia”, anglo-saxônica.

  • Em NY, uma vez em contato com outros independentistas, Martí se revela peculiarmente radical e ansioso em relação aos seus pares, manifestando, assim, um desejo de pronta retomada dos combates.

  • Em 1884, Martí rompe com generais insurgentes, em especial Goméz, ao sustentar que a liderança política deveria prevalecer sobre a militar. O pensador antevê nos rumos militaristas da luta pela independência cubana um risco de surgimento do caudilhismo que observou em outras repúblicas latino-americanas. Diz o autor: “Um povo não se funda, general, pelos métodos com que se manda em um acampamento”.

  • Em decorrência de suas divergências com a preponderante linha militarista dos insurgentes cubanos, Martí se submete, por considerável interregno, ao isolamento, assim entendido como distanciamento em relação a tarefas concretas do movimento insurrecional. Nesse período, o autor se presta a escrever em demasia, notadamente em jornais.

  • Os escritos de Martí empolgam e comovem. O público se impressiona com o pensador e, ao tempo em que ele convoca os generais – Gomez, em especial – ao combate, já é o escritor mais lido e admirado em Cuba.

  • Marti foi considerado por Sarmiento um autor de explosivo estilo, somente comparável ao de Vitor Hugo. Dário o tinha como o mais brilhante escritor, dentre todos os espanhóis e americanos.

  • Ainda em 1889, Martí antevê os desígnios colonialistas e pan-americanistas dos Estados Unidos.

  • Martí temia que, ao atuarem como mediadores de um possível conflito entre Cuba e Espanha, os EUA poderiam se valer dessa posição para reporem a dominação espanhola por sua próprio domínio sobre a ilha.

  • Martí ocupou inúmeras posições consulares e chegou a ser representante do Uruguai na primeira conferência monetária internacional, convocada pelos EUA com o objetivo de se instituir uma união monetária entre os países da América. Era a gênese histórica de projetos como a economia baseada no padrão-dólar, ou mesmo alianças como NAFTA e ALCA.

  • Em 1891, o líder revolucionário sob estudo abandona todas as suas posições profissionais e engaja-se integralmente na luta pela independência de seu país de origem. Em 1892, redige as “Bases do Partido Revolucionário Cubano”, o qual é proclamado em abril daquele ano. Posteriormente, reconcilia-se com o general Gómez e, juntos, concentram esforços em favor da obtenção de fundos e adesões para a guerra de independência.

  • Em um momento em que se acreditava na força ou mesmo na inevitabilidade da independência cubana, durante o ano de 1895, os insurgentes perdem armas importantes na Flórida, o que ocorreu em decorrência de uma traição interna seguida de sabotagem praticada pelos EUA. O fato é que, para os EUA, uma rápida vitória da independência cubana obstaria os planos de mediação do conflito com a Espanha, seguida de influência imperial sobre a ilha latino-americana.



Escrito por Socialista e Democrático às 14h20
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José Martí: Uma referência universal para os oprimidos. Parte II

 

  • Um importante documento independentista foi lançado por Gómez e Martí no ano de 1895. Trata-se do “Manifesto de Montecristi, em cuja teor se lia que “A revolução independentista, iniciada em Yara após uma preparação gloriosa e cruenta, entra num novo período de guerra em Cuba, em virtude da ordem e dos acordos do Parlamento Revolucionário, no exterior e na ilha, e da exemplar congregação, nele, dos elementos consagrados ao saneamento e à emancipação do país, para o bem da América e do mundo”.

  • As divergências entre o comando militar e civil das lutas por independência, contudo, não tardaram a ressurgir. Neste caso, todavia , o General Gómez fica ao lado de José Martí.

  • Pouco antes de morrer, o autor, em cartas, enfatiza a dupla tarefa a que se propusera, concernente na emancipação de Cuba perante a Espanha mas, igualmente, na obstrução de um avanço imperialista dos Estados Unidos sobre a Ilha. Cuba, para Martí, deveria ser uma trincheira a impedir que a influência imperialista dos EUA seguisse caminho pela América Latina.

  • O pensador morreu em maio de 1895, em combate, atacado por forças espanholas.

  • Martí, aos olhos ocidentais, seria inclassificável, ao tempo em que sua trajetória não se subsume aos cortes e classificações funcionais e temáticos tão caros à modernidade ocidental. O pensador, com efeito, não é um egresso do capitalismo industrial e sua correspondente divisão funcional. Sob tal premissa pode-se entender como o autor se voltou, concomitantemente, a múltiplas práticas, como a poesia, a luta armada, a teoria e a literatura infantil, dentre outras.

  • O pensamento de José Martí expressa, reiteradamente, uma reação ao eurocentrismo e à clivagem entre civilização e barbárie. Martí, em claro diálogo com Sarmiento, afirma que “não há conflito entre civilização e barbárie e, sim, entre a falsa erudição e a natureza”.

  • No que se refere aos EUA e seu potencial imperialista, Martí é de tal modo enfático que chega a se reportar ao temor quanto surgimento de uma “Roma americana”. Como Porto-rico evidencia, os piores prognósticos do pensador acabaram por se confirmar.

  • Martí, um profundo conhecedor dos EUA, denuncia o caráter contraditório dos direitos civis positivados na Constituição daquele país e os desígnios da acumulação capitalista.

  • Uma nota estético-política, a partir da qual podemos dizer que o poeta em análise fora um profeta ou, quando menos, precursor da antropofagia modernista. Veja o que escreveu Martí: “Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo. Mas o tronco terá que ser o de nossas repúblicas”.

  • Como já exposto, Martí se propôs a duas tarefas histórico-políticas: a) a independência política de Cuba perante a Espanha e; b) a obstrução da expansão imperialista estadunidense. Destarte, por razões táticas, o revolucionário manifestou uma tendência ao silêncio em face dos conflitos sociais – os quais não ignorava – de modo a assegurar a unidade de uma frente multiclassista em favor da independência cubana.

  • De qualquer modo, o autor anteviu conflitos sociais nos EUA com natureza semelhante àqueles que Marx equacionou como resultantes da tensão entre capital e trabalho. Confira-se: “Aqui, onde os trabalhadores são fortes, lutarão e vencerão os trabalhadores. Os problemas se retardam, mas não se desvanecem. (...) Em outras terras travam-se conflitos raciais e batalhas políticas. E nesta terra se travará a terrível batalha social”.

  • Em texto redigido por ocasião da morte de Darwin, Martí manifesta um espiritualismo, assim entendido pelo autor como inarredável “metade do ser”. O pensador fora, contudo, um constante anticlericalista.

  • A arte se definia, nas palavras do poeta, como “o caminho mais curto para chegar ao triunfo da verdade e colocá-la, de forma que perdure e cintile, nas mentes e nos corações.”

  • Há um instigante paradoxo na estética literária de José Martí: o autor desdenhava dos romances e das ficções, de maneira a optar pela lógica utilitária de cartas ou textos jornalísticos. Nestes, todavia, nota-se rara beleza literária. Ademais, deve-se ressaltar a vasta e ímpar obra poética que lavrou.

  • Martí afirma, apaixonadamente, sua identificação com a América do índio Juárez, em detrimento da cultura anglo-saxônica em que Lincoln se forjou. Os EUA teriam se tornado, nas palavras do autor, “uma grande República que se enlouqueceu com o poder”. Lado outro, reconhece-se a força moral e os anseios por liberdade inerentes aos povos que edificaram a América do Norte. O que se deu, todavia, nas palavras de Martí, foi que “a liberdade que triunfa... é senhoril e sectária... mas local do que da humanidade... egoísta e injusta, sobre os ombros de uma raça escrava”. Ao que parece, autores como Habermas e H. Arendt não conheceram a obra de Martí, ao tempo em que identificam na fundação constitucional dos EUA uma igualdade política e uma liberdade civil de resto ausentes da realidade de negros e índios.

  • A dramática história de conquista dos povos indígenas pelo colonizador espanhol, influenciada em grande medida por rivalidades e divisões entre aqueles, permite a lembrança, do modo como é contada por Martí, à música “canção pela unidade latino-americana”, de Pablo Milanez.

  • Martí, se antecipando ao que hoje seria uma crítica consistente a um ativismo ansioso e estéril de alguns movimentos sociais e ONG´s, atribui dignidade política à elaboração conceitual, teórica e discursiva, o que se manifesta, por exemplo, na lírica assertiva de que “trincheiras de idéias valem mais do que as de pedras”.

  • Em “Nossa América”, há virulentas críticas contra a idéia de uma aliança entre a América hispânica e norte anglo-saxão, conforme se depreende da exemplificativa passagem a seguir: “... estes desertores que pedem fuzil aos exércitos da América do Norte, que afoga em sangue seus índios e que vai de mal a pior”.

  • Há, ainda, na obra supracitada, exemplos de veemente afirmação das tradições da América Espanhola contra a cultura européia, consoante se infere do seguinte excerto: “o livro importado foi vencido, na América, pelo homem natural”. E, uma vez mais, recobra-se a crítica oferecida a Sarmiento: “não há batalha entre civilização e barbárie, mas sim entre a falsa erudição e natureza”.

  • Martí defende um conhecimento adequado às peculiaridades da América, o que implica uma universidade própria, uma abordagem própria (e.g estudar-se os incas mais do que os gregos) e um aprendizado das práticas relacionadas ao governo condizentes com o caráter sui generis da América. O autor argumenta contra o despropósito daqueles que, além-mar, aprenderam a governar a França e a Inglaterra, mas nunca o próprio povo que pretendiam liderar.

  • Martí expressa contentamento com o que identifica como uma juventude que já começa a se perguntar sobre as peculiaridades americanas, a criar antes de copiar, de tal arte de cunham o pensamento próprio da América. Poeticamente, o pensador ilustra tal atitude nos seguintes termos: “o vinho é de banana e, se sair ácido, é o nosso vinho”.

  • Novamente, destaca-se que, na obra do pensador em apreço, o grande perigo e ameaça para a definitiva constituição de uma identidade, uma política, uma estética, uma história e, assim, um ethos latino-americano, seria a América do Norte, constituída por um povo, nas palavras do autor, “empreendor e pujante”, que “desconhece e desdenha da ‘nossa américa’’.

  • Os EUA propuseram, em 1888, um convite a todos os povos da América e ao Reino do Havaí, para que se efetivasse, em Washington, uma conferência orientada à adoção de uma moeda comum entre os países participantes. Martí objetava tal iniciativa com fulcro, dentre outros, nos seguintes argumentos: a) não pode ser acatada sem profunda reflexão, como fruto de um alumbramento latino diante da prosperidade estadunidense, de sorte que seria necessário um profundo exame dos interesses envolvidos, da força de cada país aderente à união monetária e das possíveis conseqüências advindas da aliança. Sob tal propósito, Martí afirma que “governar é prever”; b) Os EUA seriam constituídos por povos que extinguiram os índios, escravizaram os negros e, a um só tempo, desprezariam e desconheceriam a Hispano-américa. Seria inconveniente, destarte, uma aliança com essa gente; c) Para Martí, uma União econômica implica uma união política, de tal arte que o povo economicamente mais forte tende a dominar o mais fraco e; d) A aliança econômica, por meio de uma moeda comum, ensejaria um isolamento do subcontinente em relação à Europa.

  • Em “Minha Raça” Martí apresenta algo que, atualmente, é uma noção relativamente consensual, concernente na distinção entre as práticas racistas e as condutas tendentes à reivindicação de direitos por um povo oprimido, a exemplo dos escravos negros.

  • É interessante notar como, ainda no século XIX, Martí preconiza a solução da questão racial em termos transformativos, antes de afirmativos. Raça, aliás, era um conceito equivocado para o autor, de sorte que não caberia a ninguém, brancos ou negros, afirmam tal categoria, mas, em verdade, tratar-se-ia de idéia a ser superada e banida, em favor da igualdade entre os seres humanos.

  • O autor escreveu que “a afinidade das peculiaridades é mais poderosa do que a afinidade de cor”, antevendo o argumento de que, antes de clivagens raciais ou étnicas, as diferenças sociais que definem os partidos é que deveriam ser trazidas ao debate público.

  • Em texto redigido por ocasião da morte de K. Marx, escreveu Martí que o pensador comunista “estudou as formas de assentar o mundo sobre novas bases, despertou os adormecidos e lhes ensinou o modo de lançar por terra as estruturas quebradas”.

  • Em “professores ambulantes”, o pensador cubano defendeu que deveria haver docentes itinerantes, com a tarefa de levarem conhecimento aos camponeses distantes.

  • A liberdade, para Martí, seria tão essencial quanto o ar e a luz. Os professores ambulantes far-se-iam necessários à medida em que, segundo o autor, “ser culto é a única maneira de ser livre”.

  • Martí, gênese de Paulo Freire: o professor atuaria com os alunos (e suas realidades ou dúvidas específicas), antes de fazê-lo contra os alunos (lecionando-lhes um conteúdo que não lhes faria sentido).

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 14h14
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O Apartheid à Brasileira: com as bençãos da igreja e em nome da igualdade

Ives Gandra é um jurista ligado à Opus Dei e notório por sua repulsa ao Estado e a qualquer prática que vise à redistribuição de recursos - em especial a tributação - neste que é um dos países mais desiguais do planeta, segundo o indicador gini. Trata-se, como seria de se supor, de advogado que conta com toda a simpatia do Ministro Gilmar Mendes e dos demais ultra-conservadores deste país. É, ainda, uma das mais proeminentes lideranças laicas da igreja católica brasileira.

Recentemente, em programa exibido no canal de televisão católico Rede Vida, Ives Gandra tecia comentários sobre uma ampla gama de assuntos ligados ao ensino superior no Brasil e, como usualmente procede, atacava quaisquer políticas de reserva de vagas para negros nas faculdades e universidades, ancorado na defesa de um conteúdo estritamente formal para o princípio fundamental da igualdade. Também como de praxe, o jurista objetava o que julga se tratar de uma exacerbada carga tributária a incidir sobre as instituições particulares de ensino superior, as quais, em comparação com o que se daria, por exemplo, nos EUA, onde são incentivadas pelo Poder Público, seriam perseguidas pelo Estado no Brasil. Até então, tratava-se de uma costumeira defesa ultra-liberal da idéia de que o setor privado é  o mais indicado para garantir a eficiente prestação de serviços correspondentes a direitos como educação e saúde, acompanhada de uma noção histórica e sociologicamente precária de que o princípio da igualdade não comporta tratamento diferenciado entre os desiguais. O referido professor, contudo, decidiu ir além em sua exposição e demonstrou, de modo assustadoramente claro, o ultra-conservador que se esconde na prática e no discurso de cada ultra-liberal.

Para Ives Gandra, seria um absurdo a subtração de exonerações tributárias imputadas a uma faculdade particular que, nos termos da lei, concedera 25% de vagas na forma de bolsas acadêmicas. Segundo o jurista, na faculdade em que tal cancelamento de vantagens fiscais se dera os alunos "da favela" (palavras dele), para que se sentissem mais confortáveis e menos constragidos em uma escola particular, assistiriam aulas em classes separadas, ou seja, compostas apenas por estudantes bolsistas. Tal situação, trivial para o tributarista da Opus Dei, seria não mais do que uma "vírgula burocrática", de sorte que jamais poderia desencadear o cancelamento dos benefícios tributários conferidos à instituição.

Em suma, a segregação, em salas apartadas, de estudantes bolsistas, não apenas é tolerada pelo católico liberal em questão, mas é estimulada como mecanismo de estímulo ao melhor conforto e menor constragimento daqueles que são provenientes "da favela". Ora, qual seria o constragimento de um bolsista ao estudar junto dos endinheirados? Não vivemos em uma sociedade pautada pela igualdade, tão defendida por Ives Gandra? Seria o constragimento advindo dos bolsistas ou, em verdade, aqueles que pagam mensalidades exigem manter-se distantes do povo pobre do país e, assim, pressionaram a instituição de ensino a humilhar, com um isolamento institucional, os bolsistas? Qual é a diferença entre essa lógica e a do Apartheid?

De fato, a simples suspensão dos benefícios fiscais no caso em apreço demonstra como esse país é frágil institucionalmente, haja vista que, em qualquer Estado minimamente sério, tamanha discriminação ensejaria a prisão dos seus agentes e o fechamento da escola.

 

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 17h19
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Socialismo? Onde?

Colunistas econômicos de esquerda (ou assim auto-proclamados) e de direita têm afirmado, com assombrosa freqüência, que as medidas de estatização dos ativos assim chamados "tóxicos" de instituições financeiras, gestoras de títulos de hipotecas imobiliárias ou montadoras de automóveis possuem um fundo socializante. Nada mais non sense.

Primeiramente, sabe-se que Estados têm adquirido ativos no mercado com o simples objetivo de, posteriormente, devolver-lhes à iniciativa privada, em operações nas quais os conribuintes (ou seja, trabalhadores, dada a regressividade da quase totalidade dos sistemas fiscais ocidentais) assumem o prejuízo decorrente de aventuras perpetradas por grandes corporações. Em síntese, externalidades negativas oriundas da irresponsabilidade capitalista recaem sobre os cidadãos. Capitalismo, destarte, em sua acepção mais pura.

Ademais, ainda que os ativos permanecessem eternamente sob domínio do Estado, tal não se predicaria, por si só, como medida socialista. A afetação de riquezas à burocracia não condiz com o conceito marxiano de socialismo. Esta é a razão, aliás, pela qual a URSS jamais foi um país em que o socialismo se realizou. Ora, se a concentração de meios de produção e o controle da atividade econômica pela burocracia estatal fossem critérios para identificação de um modo de produção como socialista, seria inevitável constatar que o Czarismo, mas do que a NEP ou mesmo do que período que lhe sucedeu, seria mais próximo do socialismo do que o regime soviético.

Socialismo, em suma, é categoria que contempla em igual grau as dimensões da produção (coletiva, pautada nas possibilidades de cada trabalhador), da distribuição (pautada por critérios distintos dos mecanismos de incentivo do capitalismo, ou seja, pela necessidade) e do rendimento do trabalho (uma vez que a distribuição equânime de migalhas é, como afirmou Marx em "O Capital", uma lógica inferior ao capitalismo). A verdade é que a conquista do socialismo é antagonicamente oposta à burocratização da economia, uma vez que , naquele, fóruns distintos do Estado devem, necessariamente, repor seus coercitivos mecanismos de manutenção da lógica de dominação inerente à reprodução do capital.

Já se corrompeu o conceito de socialismo nos regimes burocrático-totalitários de matriz stalinista. Que isto não ocorra novamente com simples políticas estatais - sequer keynesianas - orientadas à manutenção da  acumulação do capital, a exemplo das que têm sido implementadas no atual contexto de crise econômica  mundial.

em tempo: Uma recomendação de leitura para melhor compreensão do argumento de que a URSS jamais realizara o socialismo (mas, ao invés, rendera-se a um totalitarismo burocrático) é a obra "A Revolução Traída", de L. Trotsky, especialmente em seus dois primeiros capítulos.



Escrito por Socialista e Democrático às 17h44
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As Velas na Praça dos Três Poderes: um protesto inédito e necessário

Ontem, dia 06 de maio de 2009, aproximadamente 300 pessoas se concentraram diante da sede do Supremo Tribunal Federal, na Praça dos Três Poderes, em Brasília, com o objetivo de protestar contra Gilmar Dantas (conforme Noblat), presidente do STF. O Ministro, como se sabe, locupleta-se ilicitamente por meio da contratação, recorrentemente sem licitação, de seu cursinho chamado IBDP para fins de qualificação dos servidores de órgãos onde atua. Ademais, trata-se de um manifesto adversário dos direitos políticos, ao tempo em que defende e propõe reiteradamente a criminalização de movimentos sociais como o MST. Trata-se, ainda, de um anti-republicano que, atravessando quaisquer procedimentos normativos, telefona para uma governadora em defesa dos interesses de um banqueiro-latifundiário, chama o Presidente da República às falas e destitui autoridades com base em factóides nunca comprovados, como no caso do grampo telefônico sem áudio alusivo a uma suposta conversa entre o ministro e um senador do ex-PFL. Finalmente, lembra-se que Gilmar não tem qualquer apreço pela soberania popular, de modo que pratica e sustenta uma excêntrica linha hermenêutica acerca da jurisdição constitucional, nos termos da qual o STF acaba por se constituir, sem mandato para tal, como uma terceira casa legislativa.

É salutar, portanto, o protesto ontem realizado. A sociedade civil começa a se atentar para o fato de que o hermético Poder Judiciário é co-responsável pelas mazelas que assolam este país.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 17h21
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Dia 1o de Maio, Dia do Trabalhador: um Poema de Vinícius e a Esperança de que Novos Tempos Virão.

Vinícius de Moraes, no belíssimo poema abaixo, nos faz lembrar, com a força do lirismo, que os pós-modernos e autores como C. Offe talvez não estejam a olhar em volta com suficiente sensibilidade ao proclamarem o fim da sociedade do trabalho. O mundo em que cada um se constitui e despende quase todo o tempo de vida na lógica laboral alienante só acabará quando o atual altíssimo rendimento da atividade dos trabalhadores não mais se dissolver na acumulação privada, para se destinar a uma equânime distribuição. Assim, o fardo, a maldição do livro do Gênesis, cederá terreno à realização cultural, estética, ética e política de toda a humanidade. Antes, contudo, cada operário ainda haverá de dizer não, como bem se extrai da poesia a seguir:

 

O Operário em Construção (Vinicius de Moraes)

Era ele que erguia casas
Onde antes só havia chão.
Como um pássaro sem asas
Ele subia com as casas
Que lhe brotavam da mão.
Mas tudo desconhecia
De sua grande missão:
Não sabia, por exemplo
Que a casa de um homem é um templo
Um templo sem religião
Como tampouco sabia
Que a casa que ele fazia
Sendo a sua liberdade
Era a sua escravidão.

De fato, como podia
Um operário em construção
Compreender por que um tijolo
Valia mais do que um pão?
Tijolos ele empilhava
Com pá, cimento e esquadria
Quanto ao pão, ele o comia...
Mas fosse comer tijolo!
E assim o operário ia
Com suor e com cimento
Erguendo uma casa aqui
Adiante um apartamento
Além uma igreja, à frente
Um quartel e uma prisão:
Prisão de que sofreria
Não fosse, eventualmente
Um operário em construção.

Mas ele desconhecia
Esse fato extraordinário:
Que o operário faz a coisa
E a coisa faz o operário.
De forma que, certo dia
À mesa, ao cortar o pão
O operário foi tomado
De uma súbita emoção
Ao constatar assombrado
Que tudo naquela mesa
– Garrafa, prato, facão –
Era ele quem os fazia
Ele, um humilde operário,
Um operário em construção.
Olhou em torno: gamela
Banco, enxerga, caldeirão
Vidro, parede, janela
Casa, cidade, nação!
Tudo, tudo o que existia
Era ele quem o fazia
Ele, um humilde operário
Um operário que sabia
Exercer a profissão.

Ah, homens de pensamento
Não sabereis nunca o quanto
Aquele humilde operário
Soube naquele momento!
Naquela casa vazia
Que ele mesmo levantara
Um mundo novo nascia
De que sequer suspeitava.
O operário emocionado
Olhou sua própria mão
Sua rude mão de operário
De operário em construção
E olhando bem para ela
Teve um segundo a impressão
De que não havia no mundo
Coisa que fosse mais bela.

Foi dentro da compreensão
Desse instante solitário
Que, tal sua construção
Cresceu também o operário.
Cresceu em alto e profundo
Em largo e no coração
E como tudo que cresce
Ele não cresceu em vão
Pois além do que sabia
– Exercer a profissão –
O operário adquiriu
Uma nova dimensão:
A dimensão da poesia.

E um fato novo se viu
Que a todos admirava:
O que o operário dizia
Outro operário escutava.

E foi assim que o operário
Do edifício em construção
Que sempre dizia sim
Começou a dizer não.
E aprendeu a notar coisas
A que não dava atenção:

Notou que sua marmita
Era o prato do patrão
Que sua cerveja preta
Era o uísque do patrão
Que seu macacão de zuarte
Era o terno do patrão
Que o casebre onde morava
Era a mansão do patrão
Que seus dois pés andarilhos
Eram as rodas do patrão
Que a dureza do seu dia
Era a noite do patrão
Que sua imensa fadiga
Era amiga do patrão.

E o operário disse: Não!
E o operário fez-se forte
Na sua resolução.

Como era de se esperar
As bocas da delação
Começaram a dizer coisas
Aos ouvidos do patrão.
Mas o patrão não queria
Nenhuma preocupação
– "Convençam-no" do contrário –
Disse ele sobre o operário
E ao dizer isso sorria.

Dia seguinte, o operário
Ao sair da construção
Viu-se súbito cercado
Dos homens da delação
E sofreu, por destinado
Sua primeira agressão.
Teve seu rosto cuspido
Teve seu braço quebrado
Mas quando foi perguntado
O operário disse: Não!

Em vão sofrera o operário
Sua primeira agressão
Muitas outras se seguiram
Muitas outras seguirão.
Porém, por imprescindível
Ao edifício em construção
Seu trabalho prosseguia
E todo o seu sofrimento
Misturava-se ao cimento
Da construção que crescia.

Sentindo que a violência
Não dobraria o operário
Um dia tentou o patrão
Dobrá-lo de modo vário.
De sorte que o foi levando
Ao alto da construção
E num momento de tempo
Mostrou-lhe toda a região
E apontando-a ao operário
Fez-lhe esta declaração:
– Dar-te-ei todo esse poder
E a sua satisfação
Porque a mim me foi entregue
E dou-o a quem bem quiser.
Dou-te tempo de lazer
Dou-te tempo de mulher.
Portanto, tudo o que vês
Será teu se me adorares
E, ainda mais, se abandonares
O que te faz dizer não.

Disse, e fitou o operário
Que olhava e que refletia
Mas o que via o operário
O patrão nunca veria.
O operário via as casas
E dentro das estruturas
Via coisas, objetos
Produtos, manufaturas.
Via tudo o que fazia
O lucro do seu patrão
E em cada coisa que via
Misteriosamente havia
A marca de sua mão.
E o operário disse: Não!

– Loucura! – gritou o patrão
Não vês o que te dou eu?
– Mentira! – disse o operário
Não podes dar-me o que é meu.

E um grande silêncio fez-se
Dentro do seu coração
Um silêncio de martírios
Um silêncio de prisão.
Um silêncio povoado
De pedidos de perdão
Um silêncio apavorado
Com o medo em solidão.

Um silêncio de torturas
E gritos de maldição
Um silêncio de fraturas
A se arrastarem no chão.
E o operário ouviu a voz
De todos os seus irmãos
Os seus irmãos que morreram
Por outros que viverão.
Uma esperança sincera
Cresceu no seu coração
E dentro da tarde mansa
Agigantou-se a razão
De um homem pobre e esquecido
Razão porém que fizera
Em operário construído
O operário em construção.



Escrito por Socialista e Democrático às 22h47
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Passos na trilha de Amartya Sen: o IPEA e o IQD

Desde que Amartya Sen formulou a idéia - já bastante comum entre os marxistas - de que o crescimento econômico, enquanto tal, assim como a distribuição do PIB per capita, são elementos frágeis e metodologicamente incompletos para a aferição do desenvolvimento sócio-econômico, índices mais complexos, como o IDH, passaram a integrar a gramática empírico-metodológica dos estudos econômicos.

Nessa esteira, o IPEA começou a operar, recentemente, com um indicador denominado IQD (Índice de Qualidade do Desenvolvimento), cuja resultante se compõe de três grandes grupos de variáveis ou subíndices: 1) Índice de Qualidade de Crescimento (composto das variáveis produção setorial, massa salarial, confiança dos empresários e meio ambiente); 2) Índice de Qualidade da Inserção Externa (cujas variáveis integrantes são composição das exportações, do investimento estrangeiro, os termos de troca,  a renda líqüida enviada ao exterior e as reservas internacionais) e; 3) Índice de Qualidade do Bem-Estar (que é uma variável dependente das variáveis taxa de pobreza, mobilidade social, desigualdade de renda, desemprego e ocupação formal).

Os parâmetros de  valoração do índice oscilam entre o diagnóstico de uma realidade péssima, ruim, instável, boa e ótima. Na última pesquisa realizada, a segunda da série histórica, o país manteve-se instável, o que significa que os indicadores - subíndices - não se comportam coerentemente na mesma direção.

Segundo o IPEA, o Índice do Bem-Estar foi o único a contar com oscilação positiva. A autarquia ressalva, contudo, que a pobreza se manteve estável em 31,2% e que o número de pessoas ocupadas aumentou apenas entre aqueles com renda superior R$ 1.601.34. Apesar da ligeira melhora no índice de GINI, é inevitável não temer um novo processo de concentração de renda no país...

Finalmente, ainda quanto ao índice, maiores detalhes precisam ser estudados (como o que se entende pela variável meio-ambiente). Ademais, sabe-se que confiança do empresariado nem sempre está correlacionada postivamente com investimentos (veja-se os dias que antecederam a crise atual), assim como a manutenção de reservas internacionais elevadas pode indicar, como estudos do próprio IPEA demonstram, uma drenagem fiscal de recursos do trabalho para financiamento do capital.

 

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 16h16
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