Palavra Socialista


A Volta dos que não foram

A volta dos que não foram

Francisco Mata Machado Tavares

 

Ouve-se no Brasil destes dias de junho e julho de 2013 um grave e recorrente aviso. Trata-se do alarme, em geral proveniente dos palácios governistas, sobre os riscos atinentes à iminente “volta da direita” ao poder na chefia do Executivo da União. Seja por golpe de Estado, na versão dos mais aflitos, seja por meio do sufrágio, segundo outros igualmente ressabiados, acautela-se a nação com a possibilidade, intensificada pelos protestos de rua, de um regresso dos setores sombrios, reacionários, perigosamente nefastos à República e à participação social em nossa crescentemente inclusiva sociedade.

Tenho lido muitos romances da cultura cyberpunk. Dei-me a assistir, com estranha frequência, à filmografia das distopias de um mundo low-life-high-tech, como The Dune, Matrix ou Blade Runner. E, patologicamente imerso nessa estética, tenho até mesmo dedicado algumas horas mensais a jogar um videogame chamado Deus Ex: Human Evolution, cuja narrativa se dá em um caótico ano de 2027, quando as corporações controlam a política e a biotecnologia promete, a um só tempo, potência e disciplina, saber e dominação, de um modo que bem ilustr a o ponto acadêmico dos estudiosos do biopoder, ou mesmo dos críticos da razão instrumental.

É assim que, diante dos constantes alarmes sobre os riscos da apocalíptica “volta da direita” e imerso em distopias ficcionais sobre um futuro próximo assustadoramente verossímil, deparei-me, qual Gregor Samsa, com os mais intranquilos sonhos (espero não acordar metamorfoseado em variantes bizarras ou improváveis, como, talvez, um petista que se diga socialista), nos quais vejo detalhes desse pavoroso Brasil sob o restaurado jugo das forças de direita. Nesse psicanalítico expediente orientado a superar o meu pânico, peço-lhe s, leitores, vênia para externalizá-lo e detalhá-lo convosco. O meu pesadelo se dá em treze atos, em cabalístico mimetismo do número de um partido brasileiro.

1) Quando a direita voltar ao poder, uma concepção tecnocrática de desenvolvimento, própria da época em que os militares governaram, será restabelecida. Projetos sobre os quais não se ouvia falar desde os tempos de Médici, como a Usina de Belo Monte, serão retomados e conduzidos em parceria com grandes conglomerados do capitalismo oligopolista. Indígenas serão assassinados e, quando menos, publicamente insultados por ministras de Estado. A Polícia Federal confiscará o material de trabalho dos jornalistas que cobrem conflitos ambientais e agrários. A Força Nacional de Segurança será despachada para reprimir insurgências operárias nas grandes obras da Amazônia. A legislação ambiental será dilacerada, sob efusivos aplausos de lideranças latifundiárias, aliadas à regressante direita em seu governo.

2) Quando sofrermos a iminente volta da direita, o governo será aliado indissolúvel das bancadas parlamentares teocráticas. Seu partido abdicará da coordenação da Comissão de Direitos Humanos da Câmara, em benefício de um notório teocrata. As políticas públicas educacionais voltadas ao respeito à população LGBT serão desqualificadas pela Presidente da República como “propaganda de opção sexual”. É possível, até mesmo, que se faça aprovar uma bolsa orientada a inibir o exercício, por mulheres vitimadas por violência sexual, do direito ao aborto legal.

3) Acaso as pessoas continuem a protestar e abram as portas da história para o regresso direitista, é certo que o Governo Federal combaterá com mão de ferro as rádios livres, ao tempo em que inverterá bilhões em favor das grandes empresas de comunicação de massa.

4) No mais pavoroso cenário, o Brasil comandará uma invasão a um paupérrimo país da América Central e nossos militares serão acusados, qual estadunidenses no Iraque, de todo tipo de prática indevida. É até possível que o Wikileaks deixe transparecer quea empresa têxtil de um finado vice-presidente direitista tenha intenção em ingressar no país invadido, conformando-se uma curiosa versão sub-equatorial do direitista Dick Chenney.

5) Dizem que se a direita voltar ao poder será inexorável o restabelecimento das privatizações e dos favores estatais ao grande capital. Leilões de reservas petrolíferas, alteração da legislação portuária com finalidades privatizantes, concessões de aeroportosà iniciativa privada, exonerações fiscais ao grande capital e práticas afins serão uma rotina nesse dantesco cenário de restabelecimento do governo pelas forças do atraso.

6) Acaso a direita acesse a Presidência da República novamente, é certo que tentará fazer de Renan Calheiros o Presidente do Senado. É inevitável que José Sarney volte à cena política e, no mais assombroso cenário, há alguma chance de nomes como Collor e Maluf restabelecerem as respectivas carreiras, sob os auspícios do partido da direita.

7) Se os nossos inimigos voltarem, creio que até 47% dos recursos do Orçamento da União serão dedicados ao adimplemento da dívida pública e o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, cujo artigo 26 determina sua auditoria, permanecerá uma letra morta. É possível que o sistema tributário se torne ainda mais regressivo do que nos anos FHC e que os pobres, por conseguinte, vivam sob uma escorchante carga tributária, ao passo que os ricos experimentem padrões de arrecadação próprios de paraísos fiscais.

8) Com a volta da direita, pode ser que aprovem uma lei ordinária com o escopo de afastarem, em favor da FIFA (e, por via oblíqua, das corporações que tal entidade representa sob o estímulo pecuniário de patrocínios oficiais), liberdades fundamentais de expressão e de associação dos brasileiros, proibindo-se, por exemplo, faixas de protestos dentro dos estádios de futebol ou em suas proximidades. Imagina-se até mesmo que a Presidente mande sua Força Nacional para reprimir ativistas e faça pronunciamentos em rede nacional com apelos clamorosos ao primado da lei e da ordem.

9) A direita manterá os gastos da União com educação superior nos mesmos 0,7% do PIB dos tempos de FHC, mas expandirá o sistema nominalmente, dando origem a universidades com aulas em containers e a professores com vencimentos reais inferiores aos dos direitistas tempos de Paulo Renato Souza. O partido da direita, quando gerir municípios, dilapidará o SUS e apostará no privatizante modelo das organizações sociais. As estradas no país da direita serão custeadas por pedágios. O transporte público será exceção, enquanto os incentivos fiscais à indústria automotiva serão a regra.

10) Se a direita voltar, seu partido não receberá ativistas ou manifestantes. Tentará confinar-lhes em espaços controlados e assépticos, como conferências mantidas pelo governo do partido, para que sejam frequentadas por filiados ao partido, onde terão diálogos com empresários que financiam as campanhas do partido. Quem for às ruas conhecerá a mais violenta máquina de violação dos direitos humanos, a se manifestar na Bahia, no Rio Grande do Sul, no Distrito Federal e onde mais o grupo da direita governar. Onde não governarem, pedirão apoio das forças policiais dos governos de seus adversários, em uma aliança tática contra a democracia e os direitos políticos ou civis.

11) Se a direita voltar, ai meu Deus, o país começará a se desindustrializar e ocupará o papel precípuo de exportador de commodities minerais e agrícolas sem valor agregado, semeando no presente a grande crise do futuro.

12) No governo da direita, ao menor sinal de inflação (que será uma inflação de preços, impulsionada por tarifas administradas pelo governo em favor do grande capital, antes de inflação de demanda) o Banco Central elevará a taxa de juros SELIC, semeando recessão e usura.

13) No governo da direita, assim como se alardeava o milagre econômico em Médici, a máquina oficial de propaganda, onipresente (depois de bater recorde de fechamentos coercitivos de rádios livres) da grande mídia (dizem que a Veja dedicará capa laudatória à Presidente da direita e que a Globo receberá somas recordes de publicidade governamental) à blogosfera, vai dizer que a renda nacional foi desconcentrada. Mas, se alguém perguntar sobre os dados referentes à diferença entre renda do trabalho e renda do capital, os intelectuais da direita dirão que é metodologicamente impossível medir tal separação, de modo que ficarão satisfeitos em dizer que remediados passaram parcos recursos aos pobres, enquanto os bilionários enriqueceram como nunca.

Que a direita nunca volte! Que o presente nunca aconteça! Voltemos ao passado em nossas máquinas do tempo e desçamos em julho de 2013, para, ali, derrotarmos, nas ruas, o governo da direita que, àquele tempo, ainda não era conhecido por seu nome real!

 


Escrito por Socialista e Democrático às 16h02
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Desci na Estação Errada

Caríssim@s,

 

O excesso de trabalho nos últimos dias deve mesmo ter comprometido a minha concentração. Ontem, por exemplo, peguei um ônibus (pagando a abusiva tarifa de R$ 2,70) com destino a Maio de 1968 e, incauto, creio ter desembarcado na estação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A história desse curioso itinerário, permitam-me a digressão, inicia-se bem antes, vinte anos atrás. Peço a paciência de vocês para contar um pouco do que vivi e, em seguida, narrar o que se deu na cidade de Goiânia em 20 de junho de 2013.

 

Corria o ano de 1993 e eu tinha quatorze anos de idade. Àquela época, eu atuava na juventude do PT e participava do grêmio estudantil da minha escola. No mês de novembro fui designado por meus colegas como delegado ao Congresso da UBES, que teria lugar em São Paulo. Integrei o grupo de apoiadores da "oposição unificada", a reunir um amplo leque de ativistas contra a direção majoritária da entidade, composta pelo MR8/PMDB. O Congresso foi tenso. Dirigentes do MR8 roubaram os documentos meus e da minha irmã, de modo que não pudéssemos obter nossas credenciais para votação na plenária final. Ademais, tentaram invadir o nosso alojamento, despertando uma tensão que, com aquela idade, eu ainda não vivera. Finalmente, em um confronto dito, um deles saltou de um palanque em direção à minha cabeça e tudo de que me lembro é do momento eu que acordei, atordoado, na enfermaria do Anhembi. Um ano após, em 1994, disputamos eleições para o grêmio precisamente contra uma chapa liderada por um dirigente da juventude secundarista do MR8. Vencemos. Passaram-se mais alguns meses e, certo dia, o tal militante stalinista, chamado Ricardinho, telefona para a minha casa. Estranhei um telefonema de alguém que estivera por trás do roubo dos meus documentos pessoais e de uma virulenta agressão física contra mim. O assunto, todavia, era um só: precisávamos nos unir e organizarmos a adesão dos estudantes do nosso colégio à passeata contra a privatização da Vale do Rio Doce. Ele, na campanha do Quércia. Eu, pedindo votos para Lula. Fizemos algumas reuniões, nos entendemos e, dias após, estávamos lá, ombro a ombro, na avenida Afonso Pena, a minha bandeira vermelha com uma estrela, a bandeira azul dele com a sigla MR8. Ele aplaudiu o Dutra, do PT, porque deve ter concordado com o discurso daquele dirigente. Eu aplaudi o Guilherme Tel, do MR8, porque me senti representado por suas palavras naquele específico contexto. O tempo passou e muita coisa mudou. Continuei nas lutas sociais e, por coerência, deixei o PT, que considero um rendido partido da ordem. Algumas lições daquele dia, entretanto, parecem aina relevantes para o presente.

 

Goiânia, maio de 2013. Os jovens da cidade iniciam uma onda de protestos contra o aumento das tarifas de transporte coletivo, reajustadas de modo ilegal e abusivo pelo prefeito do PT que, como sói nos governos desse partido, se recusa a receber manifestantes ou a discutir democraticamente os rumos da cidade. Em alucinante novilíngua, o petista espalha pela cidade grandes placas com os seguintes dizeres "3 Viadutos de Concreto Armado: isso é desenvolvimento sustentável!". Fui informado sobre o primeiro protesto da pior maneira possível. Acabara de lecionar na UFG, voltava para casa concentrado em minha tese de doutorado cuja defesa ocorreria em dois dias e toca o meu telefone: "professor Franck, precisamos, com urgência, que venhas ao terminal Campinas. A polícia reprimiu nosso protesto, tem gente presa e muitas pessoas feridas". Cheguei lá e o cenário era desolador. Vi os meus melhores e mais disciplinados alunos mancando, feridos, assustadíssimos. Ninguém sabia onde estavam os presos. Iniciei um périplo por Distritos Policiais enquanto minha companheira, Ana, telefonava para delegacias em busca de informações. Em meio àqueles manifestantes, identifiquei independentes apartidários, ativistas do PSTU, do PSOL, do PCB, anarquistas e integrantes de outros movimentos regionais. Todos juntos, contra o aumento que o governo do PT, em conluio com empresários e com a força de sua aliada polícia do PSDB, tentava impor. Houve outros protestos naquele mês e no início de junho. Em um deles, de noite, no terminal da Praça da Bíblia, as coisas ficaram muito sérias. A PM de Marconi Perilo (PSDB), para aquietar a luta contra o reajuste imposto por Paulo Garcia (PT) reprimiu com imoderada violência os jovens manifestantes. Foi uma noite de terror em Goiânia. No último protesto antes da revogação do aumento ainda houve alguma repressão e, como sempre, nenhum representante, de nenhum escalão, do governo do PT, recebeu os jovens, que tinham reivindicações claras, documento escrito para protocolarem e um fórum denominado Frente Contra o Aumento da Passagem. Fórum, aliás, integrado democraticamente por ativistas do MPL, PSTU, anarquistas, independentes e muitos outros.

 

Ontem, dia 20 de junho, o protesto foi diferente. Os seiscentos manifestantes de outrora se transformaram em algo como cinquenta mil. A PM, que decidiu virar ativista e fazer política, espalho faixas com dizeres como "Viva a Paz" e distribuiu rosas para os transeuntes. Pensei: "quando militares viram militantes políticos sem antes desertarem, algo de muito ruim está por vir". Acreditei estar, no meio da multidão, de um lado que, digamos, não era exatamente o meu. O fato é que vi legiões de pessoas brancas (lembrei-me de Sartre a indagar "onde estão os negros do Brasil?"), enroladas em bandeiras do Brasil, cantando o hino de Osório Duque Estrada, aplaudindo a PM e portando cartazes como o seguinte: "Ronaldo, você disse que não se faz copa com hospital, mas com estádio. Eu te digo: suruba se faz com mulheres, não com travestis". Não vi nada, nada, absolutamente nada sobre as tarifas de transporte. O pior, contudo, estaria por vir.

 

Perdido, não me cansava de telefonar para um camarada do PSTU, de modo a tentar me posicionar, naquela Babel, junto àqueles com quem tinha acordo. Lembrei-me de 1992, no Fora Collor, quando, aos treze anos, me perdi e fiquei com o pessoal do PCdoB (meus eternos adversários no movimento estudantil de MG) que, aliás, não se cansavam de me abraçar e dizer "companheiro, hoje a nossa luta é comum... Fora Collor!". Consegui contactar o camarada e ouvi uma narrativa assombrosa: turbas de homens fortões atacaram violenta e covardemente os ativistas do PSOL, do PCB e do PSTU. Jogaram bombas, baterem, deram um soco na cara de uma militante da juventude, que foi ao chão. Berravam: "viados, viados, viados". A mesma massa que entregou um "vândalo" nas mãos da PM ontem assistiu, passiva e aquiescente, a tão nefasto ritual. Depois, contaram-me que uma bandeira do movimento LGBT também fora vandalizada e, ademais, quebraram um carro de som do PT. Pensei na Guerra Civil Espanhola. Com a PM que distribuía rosas, a esquerda correndo de bombas disparadas por civis e brados moralistas e homofóbicos, entendi que descera na estação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Perdoem-me certa pieguice, mas chorei. Caminhei um quilômetro em direção à sede do partido, onde vi os jovens que estiveram, desde o primeiro dia, abnegadamente engajados nas lutas sociais da cidade, serem hostilizados cruelmente sob o tão invertido grito de "oportunistas"! Tudo o que eu queria era ver bandeiras da CUT (que não me representa!), do PT (que não me representa!), da UJS (que jamais me representou) no ato de ontem. Eles que se expliquem quanto às contradições atinentes à dupla militância no governo que reprime e nas ruas que lutam. As pessoas que façam seu julgamento político. Mas jamais os calarei. Concordo com Trotsky quando, ao avaliar a burocratização stalinista, considerou que “A interdição dos partidos de oposição acarretou a interdição das facções; a interdição das facções conduziu à interdição de pensar de modo diferente do chefe infalível. O monotelitismo policial do partido teve como consequência a impunidade burocrática, que se tornou por sua vez a causa de todas as variedades de desmoralização e de corrupção.” Quero o meu partido nas ruas e, quando a luta for comum, não descerei as bandeiras dos outros. Concluo, pois, dizendo que irei a todas as próximas manifestações e disputarei esse espaço. Todo movimento de rua relevante na história trouxe em si certa indefinição e cabe aos lutadores disputarem-no. Fiquei muito feliz ao saber que os ativistas dos partidos de esquerda só não sofreram mais violência física porque jovens da periferia, trabalhadores, os defenderam. As lutas que hoje ocorrem no Brasil carregam a semente da mudança progressiva, da revolta popular mas, lado outro, também têm um potencial fascista. Cabe a nós fazer essa história. Cabe a nós vencer. Ficam, do episódio, algumas perguntas, que formulei em 2012, quando a mesma hostilidade contra a esquerda teve lugar nos atos do Fora Marconi, ainda que em grau de violência inferior:

 

1 - Se os partidos são, todos, inimigos da democracia, da liberdade e da auto-organização, por qual razão todas as ditaduras, sem exceção, impediram a livre organização partidária e não aceitaram a existência de agremiações trotskistas ou democrático-socialistas? Quem, na história da humanidade, além das ditaduras mais truculentas já conhecidas – como o stalinismo, o fascismo e os regimes autoritários da América Latina – já impediu o direito de expressão pública de partidos trotskistas (como o PSTU e parte significativa do PSOL)? É esta vossa fonte de inspiração?

 

2 - Em um protesto que se pretenda realmente democrático, não deveriam ser ouvidas todas as vozes que se unem à causa? Quem decide (e com que legitimidade o faz) que uma parte das pessoas aderentes ao deve ser silenciada e censurada? Onde foram condenados os ativistas socialistas ao silêncio e qual foi a sua chance de se defenderem ou argumentarem?

 

3 - Seriam os jovens realmente tão ingênuos, fracos e volúveis, de modo que a simples concessão do direito de livre expressão aos partidos políticos os tornaria presas fáceis de processos de cooptação ou de instrumentalização?

 

4 - Uma ONG financiada por empresários e pelo Estado é mais legítima do que um partido custeado apenas por contribuições voluntárias dos respectivos militantes e simpatizantes? A PM, que atuou como militante e ergueu faixas próprias, é mais legítima para se expressar politicamente do que jovens trabalhadores que estão nas ruas desde os primeiros protestos? Quem são os verdadeiros oportunistas?

 

5 - Apenas individualidades devem se expressar politicamente, de modo que partidos, movimentos sociais, sindicatos e organizações revolucionárias devem ser banidos da política? Não é o liberalismo extremo, hoje reinante no mundo em que estamos, quem propõe esta noção filosófica hiper-individualista e caótica da sociedade? Em que se diferenciam aqueles que entendem que o indivíduo é a unidade última e soberana da sociedade política em relação à prática e à teoria de grandes banqueiros e governantes?

 

6 - Se toda forma de organização coletiva é opressora e se toda decisão decorrente de voto é ilegítima, como garantirmos que atos de protesto não incorram em uma cacofonia de dezenas de microfones falando ao mesmo tempo (como no dia 20 de junho em Goiânia...) e na babelização da política, em que ninguém quer ouvir e todos querem falar apenas para alimentar os próprios impulsos catárticos individuais? Isso não é uma afirmação radical do status quo liberal e capitalista?

 

7 - Como podemos viver em sociedade sem entendermos que há o outro e que, constatada a alteridade, precisamos organizar o tempo da fala, a tática da ação coletiva e a estratégia dos nossos projetos comuns, sob pena de incorrermos em uma histeria sem um dia seguinte histórico?

 

8 - Quando, na história da modernidade, grandes transformações sociais encontraram longevidade quando se iniciaram cerceando a liberdade de expressão e de participação dos militantes de partidos que apoiavam as causas insurgentes?



Escrito por Socialista e Democrático às 10h03
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Chamada de Trabalhos

Dossiê Marxismo e Ciência Política Empírica


Org.: Adriano Nervo Codato (UFPR), Francisco Mata Machado Tavares (UFG) e Pedro Santos Mundim (UFG).


A revista SOCIEDADE E CULTURA torna pública a chamada de artigos para o dossiê temático “MARXISMO E CIÊNCIA POLÍTICA EMPÍRICA”, organizado pelos professores Adriano Nervo Codato (UFPR), Francisco Mata Machado Tavares (UFG) e Pedro Santos Mundim (UFG). A publicação é prevista para o ano de 2013.

Serão aceitos artigos escritos em português, inglês ou espanhol, que estejam em conformidade com as normas da revista (disponíveis em www.revistas.ufg.br/index.php/fchf), e que digam respeito ao tema proposto pelos organizadores, assim formulado:

A ciência social no Brasil foi significativamente influenciada por Marx e pelos diversos marxismos ocidentais até a década de 90 do século XX, quando a derrocada das burocracias de inspiração stalinista motivou uma inflexão de alcance mais amplo no mundo acadêmico, de modo que o “materialismo histórico” e seus conceitos filosóficos perderam muito do seu prestígio e emprego em pesquisas sociais. Na sequência, a ciência política brasileira experimentou um processo de crescente profissionalização e institucionalização, o qual se deu, em grande medida, sob a influência de correntes teóricas e metodológicas identificadas com o neo-institucionalismo, em especial sua variante associada à teoria da escolha racional. Ao lado disso, outros objetos legítimos de pesquisa se constituíram, em especial aqueles vinculados às instituições políticas da democracia liberal e a seus processos de representação.

O dossiê proposto insere-se nesse contexto científico e intelectual e parte da premissa de que certas categorias do marxismo podem ter o que contribuir para a compreensão das relações de poder e da dinâmica política dos dias atuais, em especial sob o cenário de crise econômica global. Adota-se, igualmente, o pressuposto de que as técnicas de pesquisa empírica desenvolvidas ao longo dos últimos decênios pelo mainstream da ciência política e as conclusões obtidas em vasto material publicado sobre o Estado, os partidos, o comportamento eleitoral, as instituições e temas afins não podem ser desconsideradas por quaisquer tradições e correntes teóricas que pretendam compreender o mundo social.

Os artigos que se pretende publicar nesse dossiê devem tentar um encontro entre diferentes perspectivas que, usualmente insuladas em categorias incomunicáveis e em suas práticas metodológicas específicas, têm muito a contribuir e a influenciar-se. Assim, incentiva-seo envio de trabalhos que se proponham a discutir fundamentos teóricos, métodos e técnicas de pesquisa empírica em ciência política a partir de premissas conceituais oriundas de Marx ou do marxismo, além de resultados concretos de investigação empírica em ciência política nos quais conceitos usuais do materialismo histórico sejam manejados, ora como meios de compreensão da realidade política, ora como hipóteses fecundas para a explicação das relações entre o poder, o Estado e as formas atuais de legitimação política.

As contribuições devem ser enviadas diretamente para os organizadores, através dos e-mail/s: adrianocodato@gmail.com, francktavares@uol.com.br e psmundim@gmail.com.

Prazo para o envio: 17 de MAIO de 2013.

Além dos artigos para o dossiê, SOCIEDADE E CULTURA também recebe, em fluxo contínuo, outras contribuições: artigos sobre temas diversos, notas de pesquisa, resenhas de livros relevantes nas ciências sociais. Tais textos devem ser enviados aos editores da revista, conforme os meios indicados nas normas para submissão.

Mais informações em: http://www.revistas.ufg.br/index.php/fchf/announcement/view/225 e http://ufg.academia.edu/FranciscoMataMachadoTavaresFranck/Call-for-Papers




Escrito por Socialista e Democrático às 15h05
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Carta Aberta ao Companheiro Frei Gilvander

Carta Aberta ao Companheiro Frei Gilvander


Goiânia, 10 de outubro de 2012


Caro Companheiro Frei Gilvander,


Há alguns anos deixei a cidade de Belo Horizonte, mas ainda guardo indissolúveis vínculos com nossa querida capital mineira, além de cultivar, aí, uma plêiade interminável de memórias e de vínculos com familiares. Dentre as lembranças que me ocorrem quando o pensamento me conduz ao sopé da nossa Serra do Curral, não tenha dúvidas de que a tua figura de um destemido, abnegado e honesto líder político e religioso me vem, com alegria e ternura, à mente. Em inúmeras ocasiões estivemos juntos, a lutarmos ao lado das ocupações urbanas, a fecharmos a linha de trem em protesto contra a transposição das águas do Rio São Francisco, a desafiarmos a arrogância da Vale do Rio Doce e ocuparmos as respectivas instalações, a nos dirigirmos para delegacias e juizados em defesa dos nossos camaradas ilegal e indevidamente perseguidos por aderirem às causas dos trabalhadores deste país e, enfim, a nos postarmos, ombro a ombro, em favor de uma sociedade igualitária, inclusiva e, respeitados os diferentes significados que atribuímos para essa palavra, socialista.

É igualmente certo que, em alguns momentos, ostentamos entendimentos diversos sobre as melhores táticas para conquistarmos os nossos objetivos, assim como não compartilhamos de idênticos referenciais teóricos, como tampouco nos é comum um entendimento sobre os critérios, procedimentos e meios mais adequados para a organização da nossa classe em oposição aos nossos inimigos. Essas divergências, todavia, são menores diante das lutas concretas que sempre nos irmanaram e do respeito que sempre nutrimos reciprocamente. É assim, sob esse marco de respeito e de honestidade, que expresso um sincero e profundo desapontamento com o injusto e cruel ataque que teceste, dias atrás, a um partido político que se destaca por sua combatividade e por seu indiscutível compromisso com o socialismo, com a democracia operária e com a independência econômica e política das nossas organizações. Não é correto ou sensato, meu tão estimado companheiro, introduzir em um balanço sobre o processo eleitoral uma frase tão leviana e destoante dos fatos históricos como a que redigiste e aqui transcrevo:


Desconfio (sic) que a Vanessa Portugal e o PSTU, indiretamente, ajudaram a reeleger o Lacerda por criticarem em pé de igualdade o Patrus e o Lacerda. Espero que o PSTU modifique o seu jeito de fazer oposição e lutar, isso para não ajudar, sem querer, a (extrema)direita.”


Gilvander, eu não sou filiado ao PSTU (já o fui) e tampouco tenho procuração ou mandato desse partido para defendê-lo. De qualquer modo, como democrata e socialista, diante de um duro ataque a uma organização dos trabalhadores, sinto-me motivado a expressar a minha solidariedade a esses companheiros, como, aliás, já procedeste em relação a outros grupos quando foram injustamente atacados. Nos tópicos abaixo apresento argumentos que, espero, o levarão a refletir e, assim, a te retratares em função de um comentário tão virulento quanto desarrazoado.

1) Gilvander, afirmas que “desconfias” de uma correlação positiva entre os votos de Lacerda e a campanha do PSTU. Guarda as tuas desconfianças para ti. Ora, qual foi o survey, quais foram os grupos focais, quais foram os estudos de comportamento eleitoral que correlacionaram positivamente o discurso do PSTU com o aumento de votos da direita ou, ainda, de uma “extrema” direita? Quais foram os procedimentos metodológicos e qual é o referencial teórico que respalda uma conclusão tão cruel? Se é apenas uma “desconfiança”, meu caro, não a leve ao público como instrumento de ataque a um partido sério e honesto. Como cristão, deverias ter aprendido que desconfianças sem fundamentos equivalem a intrigas, aquelas que o Jesus que consideras como teu deus tanto condena (aliás, curiosamente, inicias os teus textos políticos e seculares com passagens bíblicas!). Não te peço, assim, que sejas coerente com os meus princípios (seculares e próprios a um entendimento terreno e não teológico da política) mas com os teus. Um texto em relação ao qual eu sou indiferente, mas que tu tens por sagrado, é claro ao asseverar que “o que possui o conhecimento, retém as suas palavras. Os que são sábios refreiam a língua e são cautelosos quanto aquilo que dizem. Não exageram a verdade, e nem lesam o próximo enquanto falam; pelo contrário, tomam cuidado em falar com exatidão e na edificação do próximo” (Sl 39. 1-2)

 

2) Vejo muitas lacunas em teu texto de análise das eleições. Tratam-se de seletividades que, em um debate político sério, não poderiam ocorrer. Proponho que reflitas sobre outros aspectos envolvidos nesse processo eleitoral. Vejamos:

2.1) Somar-se ao palanque de Newton Cardoso, Leonardo Quintão, Hélio Costa e tantos políticos que oprimiram com a força das armas as lutas sociais do povo brasileiro, que se enriqueceram às expensas do nosso suor e que jamais se comprometeram com a igualdade e a democracia não ajuda a direita?

2.2) Agregar-se ao partido que comanda a invasão ao Haiti, que promove um genocídio em Belo Monte, que tolera torturas em Jirau, que reprime grevistas de modo sistemático e inequívoco não é, mais do que um auxílio, uma rendição à direita?

2.3) Acreditar em uma campanha financiada por construtoras, empreiteiras e inúmeros segmentos empresariais interessados na devastação ambiental, na especulação imobiliária e na concentração de renda não implica ajudar a direita? Quem são os ingênuos nessa história? Os que aportam milhares de reais nas campanhas do PT, ou aqueles que defendem as candidaturas desse partido olvidando tão claros e nefastos compromissos?

2.4) Apoiar candidatos a vereadores do PT em uma eleição em que esse partido está coligado ao PMDB não implica uma ajuda para que esta agremiação obtenha vereadores? Ocultar as regras do jogo eleitoral brasileiro, de modo a não contar para as pessoas que, ao votarem em petistas ajudam, em igual medida, a eleger um tal de Iran Barbosa, é uma forma honesta e respeitosa de se atuar politicamente?

2.5) É possível ignorar que o PT participou dos quatros anos de Governo de Márcio Lacerda, ocupando secretariados estratégicos e somando-se à base legislativa de apoio do prefeito? É pertinente esquecer o papel que o PMDB cumpriu nessas eleições em BH? É sensato não tecer qualquer referência aos financiadores da campanha de Patrus, para declarar que logo o PSTU, tão independente e tão presente em todas as lutas sociais, ajuda a direita? Em política, Gilvander, aprendemos a fazer uma pergunta importante diante de situações nebulosas: qual o interesse? O que pretendes, meu caro companheiro, ao não te referires a nenhum dos elementos acima, mas ao te lembrares de “desconfiar”, sem qualquer argumento ou dado empírico, de que o PSTU ajuda a “extrema” direita?

2.6) Digamos que, movido por um intenso otimismo, tenhas apoiado a figura pessoal de Patrus, inobstante o PT, Dilma, os financiadores da campanha, a gestão de Márcio Lacerda ( amplamente apoiada e integrada por petistas) e o PMDB. Será que um consultor da FIESP é digno de tanta confiança, a ponto de se tolerar-lhe os mais abjetos aliados e a menos recomendável política de financiamento? A FIESP, Gilvander, cujo presidente declarara, em 1989, que deixaria o país e levaria consigo todo o empresariado, acaso Lula se elegesse Presidente da República. Quem mudou desde então? A associação empresarial e sua defesa de redução dos direitos trabalhistas e dos impostos pagos por ricos, ou Patrus? Uma vez mais: qual o interesse da Fiesp em ter Patrus como seu consultor? E qual é o interesse de Patrus em prestar serviços para essa Federação, ou em ser, como foi em 2010, o vice candidato ao governo em uma chapa capitaneada pelo aliado de Collor em Minas, oligarca e inimigo histórico das mídias livres e independentes, o Sr. Hélio Costa? Será que Patrus, individualmente, é assim tão puro e justo, de modo a justificar um apoio fundamentado em sua pessoa, ignorando-se, insisto, o papel do PT no governo Lacerda, o PMDB de Newton Cardoso, Leo Quintão e Hélio Costa, além do governo Dilma e seus rumos tão divorciados dos interesses dos injustiçados deste país?

Por que, Gilvander, criticar logo o PSTU, que está diariamente ao lado dos operários de BH e região, ao lado dos servidores da PBH, ao lado das ocupações urbanas, ao lado do movimento estudantil combativo e de todos os processos sociais em favor das nossas reivindicações históricas? O que te leva a parabenizar o PT e o consultor da FIESP, para ser tão duro com o PSTU, partido que, segundo sua “desconfiança”, ajudaria não apenas a direita, mas a “extrema” direita? O que mais há entre o céu e a terra, que ignora a minha vã filosofia e que te conduz a ser tão generoso com os nossos senhores e tão rígido com os nossos companheiros?

O PSTU, Gilvander, é um partido sério. Em meu périplo por distintas regiões do Brasil, sempre vejo os militantes dessa organização comprometidos com as mais duras e necessárias lutas do nosso povo. Vejo-os, igualmente, profundamente independentes, autônomos e respeitosos em relação à democracia operária. São, ademais, companheiros que sabem integrar frentes e lidar com as diferenças, o que testemunhei em inúmeras ocasiões, com destaque para a luta operária em Chapecó, cidade onde os ativistas do PSTU não hesitaram em compor uma frente com companheiros da Intersindical, da CUT, do MST e da Teologia da Libertação (aquela é a cidade do exemplar e de bela memória Dom José), para que o sindicato dos trabalhadores da indústria das carnes fosse reconquistado das mãos patronais, nas quais estava desde 1988. É compreensível e respeitável que tu tenhas divergências com esse partido. Apresente-as e procure debatê-las com fraternidade. Insinuações sem lastro teórico ou empírico de que tão honestos e sérios companheiros são ignorantes que ajudam, sem querer, a extrema direita, em nada contribuem para o movimento dos trabalhadores, mas plantam apenas cizânias imotivadas e rancores. E isso, meu caro, a direita adora!

"Paz entre nós, guerra aos senhores".

 


Um abraço,


Franck




Escrito por Socialista e Democrático às 00h08
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Um debate com um colega

 

Publico, a a seguir, o comentário do Prof. Anderson Soares, redigido por ocasião do post "Uma Vitória da Democracia", abaixo. Adiante, apresento a minha resposta:


Prezado Prof. Frank,

Ocorre que não somos representantes do Governo nem tão pouco somos autoritários. Autoritarismo é tentar PROIBIR a adufg de consultar seus filiados como vocês tentaram. Essa colocação é no mínimo desrespeitosa com seus colegas de profissão.

Muitos professores, como eu, não tem o mínimo desejo de se submeter a assembleias com horas de discursos repetitivos antes da votação. Isso sem contar o assédio moral praticado pelos participantes, aplicando vaias e agressões verbais. Na última assembléia, vi uma professora do CLG gritanto com um senhor que votava contra a greve, classificando-o de "BURRO", e ao meu lado um professor me mandou "chupar" após o resultado da votação. E esse tipo de democracia que defende? Democracia é consultar a todos sem privá-los da liberdade de expressão e não esse circo que chamam de "assembléia".

Prof. Anderson Soares
Instituto de Informática


Prezado Professor Anderson Soares,


Antes de tudo, expresso minha sincera gratidão por seu honesto e respeitoso comentário. Estou certo de que, inobstante as nossas divergências, temos muito a aprender e a nos aprimorarmos reciprocamente por meio desse debate.


Primeiramente, quanto à caracterização do Proifes como um aparato governista, esclareço que se trata de mais do que uma opinião ou avaliação subjetiva, mas de um fato. Os dois links a seguir, cuja atenta leitura o recomendo, comprovam documentalmente a minha alegação. Esse link atesta que o Sr. Gil Vicente, ex-Presidente e principal figura pública dessa federação, recebeu recursos da parte ex adversus em suas negociações sindicais para “estudar” o objeto dessas contendas, caso que, aliás, está sob investigação no âmbito do Ministério Público Federal: link1 . Pessoalmente, não considero esse fato ilegal, mas o entendo como profundamente ilegítimo.

Já esse link comprova a partidarização do Proifes e dos respectivos sindicatos filiados, com expressa referência à Adufg: link2.

Em segundo lugar, quanto aos  nada civilizados e absurdos atos de que foste vítima em assembleias sindicais, tenha minha plena solidariedade e co-indignação. Estou certo de que também és solidário no repúdio às vaias, insultos e ofensas que, pessoalmente, tenho, outrossim, sofrido nestes tempos de greve. Permita-me, todavia, uma sutil, mas relevante, observação de ordem conceitual: esses reprováveis episódios não se enquadram no conceito de “assédio moral”, o qual, juridicamente, pressupõe um liame hierárquico entre ofensor e ofendido, tal como ocorre, por exemplo, com a chefia que sugere ou constrange docentes a abandonarem o movimento grevista.


Sabemos, meu caro, que a democracia pressupõe conflitos e momentos em que nem todos operam de maneira civilizada e respeitosa. Sabemos que esses dissabores já respaldaram a tese de inúmeros segmentos, segundo a qual essa forma decisória se reduz, nas suas palavras, a “um circo”. O regime democrático, reconhecidamente, não se propõe a eliminar os conflitos – o que é próprio de modelos autoritários, como o soviético ou o fascista – mas apenas a discipliná-los e reconhecê-los.
Desde a Grécia Antiga até o liberalismo democrático e suas variantes entendidas como "minimalistas", entretanto, há um acordo no âmbito da teoria democrática quanto à constatação de que o voto é a consequência e o resultado de um problema (tempo, escala e espaço limitados), antes de uma virtude em si. Veja-se que a própria democracia parlamentar não conta com mandatos imperativos nas nações liberal-democráticas em respeito ao "parabolare", do Latim, que ocorre nas Casas Legislativas. Em suma, o que legitima decisões democráticas não é o simples apertar de um botão consubstanciado no voto, mas o processo decisório (campanhas eleitorais, debates, trocas de ideias, acordos entre partidos, barganhas, construção de propostas que  tentam compor interesses previamente inarredáveis, etc.). No nosso caso, as assembleias permitem a circulação de informações ou argumentos mediante réplicas e refutações, de modo, por exemplo, a superar-se a pobreza conceitual e política do "sim" ou "não" à oferta do Governo. É por isso que a lei exige assembleias para definir  o que chama de  "reivindicações da categoria" e a própria ocorrência das greves, ciosa de que, de outro modo, as próprias opções  das votações seriam de titularidade de uma  pequena burocracia sindical ou patronal. Votações eletrônicas estruturadas segundo questões binárias são, além de infensas ao devido accountability sob o aspecto técnico-computacional, alheias a qualquer processo de interlocução necessário à democracia, em suas plúrimas e rivais acepções, dos Gregos a J. Schumpeter. Fazem lembrar a lógica do "sim" ou "não" própria ao Senado Romano que, até onde estudei, nunca foi taxomicamente enquadrado como espécie do gênero democracia. Realmente, as ásperas discussões em parlamentos, as chamadas “baixarias” de campanhas eleitorais e as reprováveis vaias das nossas assembleias só estão ausentes nas ditaduras. Posso provar o que digo com evidências históricas. É um preço caro, mas estou disposto a pagá-lo em nome da democracia. O contrário, sabemos, se chama autoritarismo.

Reitero que fiquei contente com a sua mensagem e que estou sempre disposto a ser convencido por suas teses e entendimentos. Expresso, ademais, o mais profundo respeito a você, cuja honestidade e interesse em debater, diferentemente do que ocorre com o Proifes e a ADUFG, estão comprovados no tom amistoso e elegante do seu comentário. Tenha, para sempre, a minha admiração e o meu respeito.

Um abraço docente,


Franck

 



Escrito por Socialista e Democrático às 16h35
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Uma vitória da democracia

 

Comovente, pedagógico e histórico!



Instantes atrás, encerrou-se uma das maiores assembleias docentes do Brasil contemporâneo, prestigiada por quase 700 pessoas. Ali, de um lado estavam o Governo, a Andifes e um sindicato que se comunica com suas bases por intermédio das chefias, descumpre acordos subscritos por sua presidente e se filia a uma federação cartorial, composta por agentes de partidos governistas, cuja principal figura pública recebe recursos do Governo Federal para redigir pretensos estudos e relatórios que desfavorecem a categoria em nome da qual insiste, ilegitimamente, em falar. De outro lado, docentes que esperam por negociar condições dignas e razoáveis de trabalho, como critérios claros de promoção e respeito ao mandamento constitucional da autonomia universitária.

 

A primeira votação concentrou-se sobre uma questão procedimental de ímpar relevância. Ocorre que os representantes do Governo, sindicato e demais setores autoritários propuseram que não deveriam ocorrer exposições ou interlocuções sobre os rumos do movimento grevista e as propostas em discussão. Entendiam que, sem qualquer processo discursivo prévio, dever-se-ia efetivar uma sumária votação, binariamente estruturada em termos de greve ou não-greve. Em suma, a lógica Arena/MDB ou, mais precisamente, o binarismo do Senado Romano, onde nunca houve nada semelhante a uma democracia, era a escolha procedimental daqueles que queriam calar as vozes de quem é autônomo em relação ao Governo ou às burocracias sindicais. Por estreita margem, inferior a 30 votos, venceu a democracia, assim entendida como livre troca de ideias e opiniões entre pessoas que se reconhecem como mutuamente racionais e iguais.

A segunda votação foi a prova empírica de que a democracia se forja na interlocução e de que a censura da pluralidade de entendimentos é o cemitério da legitimidade dos processos decisórios. Já assegurada a ampla participação dos presentes, não apenas por meio do mecânico levantar de braços pressuposto no voto, mas mediante a tão humana prática do uso da linguagem como instrumento para a interação com o outro, decidiu-se sobre a continuidade da greve. Após a apresentação de argumentos, dados e informações, inúmeros professores, a princípio contrários ao movimento paredista, mudaram de entendimento e, assim, alcançou-se ampla maioria, de 379 votos contra 267, em favor do prosseguimento das lutas reivindicatórias.

A terceira votação demonstrou de que lado está a razoabilidade e a ponderação, concedendo-se mandato para que o Comando de Greve apresente contra-proposta ao absurdo "acordo" firmado entre os braços ministerial e sindical de uma única e integral parte, o Governo. Sim, disseram os docentes, estamos dispostos a abdicarmos de parte das nossas reivindicações, queremos negociar e, para tanto, sabemos que o único meio efetivo é a continuidade da greve, uma vez que jamais fomos respeitados pelo Poder Executivo em contexto diferente.

Não é fácil lutar contra o Governo, a Andifes, o Proifes, a Adufg e seus mais recentes aliados, as chefias de algumas unidades, com quem, pasme-se, a entidade sindical tem contado para recrutar pessoas para as suas esvaziadas reuniões, em que se ignoram as prestigiadas, democráticas e amplas assembleias. Mas somos a maioria e, hoje, venceu o livre debate, venceu a democracia e, sobretudo, venceu a autonomia dos docentes, cujo destino não é definido por aparatos burocráticos que não falam em nosso nome. É importante que todo o Brasil saiba: o cartório Proifes celebrou um acordo nulo juridicamente e ilegítimo politicamente, uma vez que se fundamenta em supostas “15 reivindicações” que jamais foram submetidas à aprovação junto às bases dos sindicatos filiados a essa federação, como exige o artigo 4o da Lei de Greve. Aqui na UFG, aliás, o cartório que diz falar em nosso nome foi expressamente desautorizado a nos representar em inúmeras ocasiões.

Outra bela lição da assembleia desta tarde nos foi ministrada pelos estudantes. Foi engrandecedor e pedagógico ver, minutos após a fala de um professor que defendia o fim sumário da greve - sem debates ou concessão do direito de voz aos presentes - em nome do superior interesse dos "nossos prejudicados alunos", escutar a lúcida exposição de um representante do movimento estudantil, a lembrar que também os discentes estão em greve e que, em nome deles, falam as respectivas representações, antes de autoritários professores, que acreditam ser a voz de uma juventude independente e firme, de quem jamais receberiam mandato.

Amanhã, seguimos para um protesto em Brasília.

Queremos negociar. Temos contra-proposta e muita sensatez.

A greve é forte! A luta é agora.

Francisco Mata Machado Tavares (Franck) - Professor da FCS/UFG



Escrito por Socialista e Democrático às 20h31
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Sobre tucanos e petistas

"Nada mais parecido com um saquarema do que um luzia no poder"- Visconde de Albuquerque

Tucanos têm orgulho de sua história. Lembram-se, nostalgicamente, do modo como foram bravos e coerentes ao romperem com os oligarcas atrasados do PMDB e, deixando tão abjeto partido, fundaram uma agremiação legitimamente social-democrática. Tucanos governaram o Brasil junto com o PMDB e, sempre que possível, celebram alguma aliança que os faz reviver os seus idos tempos antecedentes à secessão que os gerou.

Petistas têm orgulho de sua história. Apreciam lembranças dos tempos em que se recusaram a eleger um candidato do PMDB no colégio eleitoral e da época em que combateram duramente o governo Sarney, filiado a tão abjeto partido. Petistas se aliam ao PMDB para governar o Brasil e têm nessa agremiação os seus preferidos parceiros em capitais como Goiânia, Rio de Janeiro ou Belo Horizonte.

Tucanos têm um líder sofisticado, elaborado, digno e superior a qualquer crítica ou suspeita, em especial quando provenientes do mundo atrasado e pré-moderno. É certo que tucanos não têm muita familiaridade com o debate Cardoso/Marini, não conhecem detalhes dos estudos sobre dependência e também não gostam de ouvir histórias sobre compra de votos para aprovação da emenda que reconduziu seu príncipe ao Olimpo do Planalto.

Petistas têm um líder que paira acima das críticas e suspeitas. O sindicalista que, entre os anos 1970 e 1980, ridicularizava o movimento estudantil, expressava frases de extremo machismo e garantia que jamais seria filiado a um partido político é quase uma divindidade para o credo dos petistas que, ademais, exaltam teses como a de que os usineiros de açúcar são heróis nacionais e de que, como greve não é férias, servidores devem ter o ponto cortado. Palavra da salvação...

Tucanos são democráticos e têm profundo apreço pelos direitos civis. Expressam suas avançadas ideias sempre que possível, como se vê nas ocupações urbanas, a exemplo de Sonho Real e Pinheirinho, onde lutaram pelo primado da lei e da ordem, contra a baderna e a desestabilização do Estado Democrático de Direito.

Petistas são lutadores incansáveis em favor das liberdades políticas e sindicais. É por isso, talvez, que o seu governo corte o ponto de grevistas e determine à Força Nacional que reprima protestos operários em Jirau.

Tucanos, quando delirantes, apreciam o colunista Reinaldo Azevedo - a quem atribuem a deferência de pensador ou polemista de ímpar criatividade - e temem por uma ditadura gramscista (seja lá o que isso signifique) no Brasil em que o PT tributa trabalho, exonera capital e suprime direitos sociais. Tucanos, quando muito loucos, não conseguem parar de pensar nos perigos do Foro de São Paulo.

Petistas, quando delirantes, apreciam o colunista Paulo Henrique Amorim – a quem atribuem a deferência de “blogueiro progressista” - e se deleitam com as certeiras e sagazes críticas às gengivas de José Serra ou à cor da alma de um comentarista da TV Globo. Petistas, quando muito loucos, acreditam que há um Partido da Imprensa Golpista – PIG – que tentará derrubar a Presidenta democrática e socialista, provavelmente por meio da divulgação de notícias contrárias às greves de servidores e favoráveis ao recorde fechamento de rádios comunitárias desde que o PT assumiu o poder, ou à regulação da TV Digital que permitiu profunda concentração do uso do espectro de radiofrequência em favor do tal PIG.

Tucanos apreciam a polícia de São Paulo e sabem que, nos tempos difíceis em que vivemos, algumas mortes de pretos e pobres são inevitáveis para a manutenção da paz social.

Petistas comandam o Exército e sabem que, em nome da paz e fraternidade entre os povos, é preciso manter tropas para domar os bárbaros haitianos e apoiar UPP´s para “pacificar” pretos e pobres em favelas sitiadas, silenciadas, barbarizadas.

 

Tucanos acreditam que o mensalão foi o “maior escândalo de corrupção de todos os tempos” e pensam que José Dirceu é uma forma cleptocrática a ser banida, denunciada e perseguida diuturnamente.

Petistas ficam indignados com o “mensalão mineiro” e a “privataria tucana” e, nos intervalos de reuniões em que pedem financiamento de campanha para banqueiros ou discutem a concessão de aeroportos ou campos de petróleo, indagam-se sobre como os tucanos podem ser tão vis e repugnantes.

Sob o céu, entretanto, há mais do que tucanos e petistas: quem abrir as janelas de casa e circular pelo mundo real que transcende os ácaros dos tapetes palacianos verá que os indígenas de Altamira, os operários de Jirau, os professores das federais, os metalúrgicos da GM, a juventude que ocupou a USP, as famílias do Pinheirinho, os pedreiros do “tsunami de peão” em Fortaleza, os lutadores contra opressões de raça e gênero que não se curvaram às traições governamentais, os trabalhadores das fábricas ocupadas, os intelectuais que não vivem de “projetos ou consultorias” e os artistas que se recusam a ser expressão estética do oficialismo e criam em todos os cantos as mais belas e subversivas manifestações estão aí, fazendo a história, transformando o mundo e desmentindo com toda a veemência a falsa dicotomia entre os homólogos que nos faz lembrar do jogo de par ou ímpar que jogávamos com o irmão mais velho nos tempo da infância, quando, matreiro, ele dizia: “par, eu ganho, ímpar, você perde”.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 16h50
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Nesta semana a TV UFG exibe uma importante entrevista com a militante Eronilde Nascimento, que teve o marido assassinado durante a ação policial ocorrida sete anos atrás em Goiânia, na Ocupação Sonho Real. Na ocasião, milhares de famílias foram indevidamente expulsas de suas casas, em bárbaro cumprimento de decisão judicial atécnica e absurda. Durante o vídeo a seguir, concedo uma breve entrevista em que me refiro ao caráter classista e seletivo do Poder Judiciário.

O Vídeo está no link a seguir: http://www.youtube.com/watch?v=pwh9akaut6c&t=1m32s

 



Escrito por Socialista e Democrático às 22h08
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ADUFG: Não em meu nome!

Há uma diferença entre divergir da direção de um sindicato e não reconhecê-la. Esta hipótese é mais gravosa, rara e séria. Lamentavelmente, todavia, é o modo como, paulatina e muito refletidamente, passei a conceber a atual gestão sindical do órgão representativo dos professores da Universidade Federal de Goiás. Dentre outras, as seguintes razões me conduzem a tão peremptória conclusão:

1) A diretoria da ADUFG tinha todo o direito de aderir ou não à greve dos docentes de Instituições Federais de Ensino Superior. Contudo, eles foram além e, em junho, encomedaram um parecer jurídico (tecnicamente indigente e destoante até das normas culta e padrão do idioma) que declarava o movimento ilegal. Ora, quando um sindicato se vale de assessoria jurídica para dizer que a greve da própria categoria é ilegal, abrindo espaço para que sejamos punidos, cruza-se uma fronteira entre a saudável divergência política e a desleal opressão ao direito constitucional de greve. Docentes poderiam ser punidos ou mesmo demitidos por abandono de função na UFG ao aderirem à greve, acaso a pretensão jurídica do sindicato que deveria nos representar fosse acolhida. Não me consta, sequer no sindicalismo de Vargas ou Mussolini, tamanha opressão à própria base perpetrada por quem deveria nos defender.

2) O grupo que dirige a ADUFG propôs e conseguiu aprovar em assembleia a afetação para outros fins de recursos destinados ao fundo de greve, de modo que, hoje, é mais difícil levantarmos recursos para, por exemplo, comprarmos espaço em meios como comerciais de rádio ou TV, com a finalidade de esclarecermos à população os problemas atinentes à proposta do governo.  Como um sindicato pode renunciar a um instrumento tão sagrado para a defesa dos direitos dos trabalhadores, utilizado desde as Minas de Carvão no século XIX, como o fundo de greve? Qual é o sindicato realmente comprometido com a defesa dos direitos dos respectivos filiados que abdica desse mecanismo?


3) A ADUFG e o Proifes se referem a "15 exigências" apresentadas ao governo, mas não explicam em que assembleia ou reunião  foram aprovadas. Ou seja, negociam com o Poder Público com base em uma pauta ilegalmente constituída, uma vez que a lei de greve é clara ao dispor sobre a necessidade de aprovação em assembleia das reivindicações da categoria. Confira-se: "
Art. 4º Caberá à entidade sindical correspondente convocar, na forma do seu estatuto, assembléia geral que definirá as reivindicações da categoria e deliberará sobre a paralisação coletiva da prestação de serviços." A questão política é ainda mais séria do que a jurídica, pois não se pode aceitar que um sindicato ou uma federação inventem reivindicações jamais discutidas com os respectivosr filiados e, em seguida, se utilizem do suposto atendimento a estas demandas para tentarem questionar a legitimidade de um movimento grevista amplo, justo, razoável e fundando em propostas e argumentos exaustivamente discutidos em assembleias de base ocorridas em todo o Brasil. Ademais, sabe-se que estas supostas exigências são quase vazias, uma vez que a atual proposta governamental para os docentes implica, de fato, subtração de direitos e redução do valor real dos vencimentos em inúmeros casos, como explicam, didaticamente, Idelber Avelar e Cassio Tavares, em textos cuja leitura é indispensável para quem deseja compreender o movimento paredista.

4) O sindicato pretende, em reniões convocadas por intermédio das chefias dos docentes, "explicar" à categoria uma proposta governamental que já foi rechaçada em assembleia amplamente prestigiada, cuja mesa, aliás, contou com a presidente da ADUFG em sua composição.

5) A diretoria da ADUFG assinou um documento em que se comprometia a respeitar as assembleias e a não dispor sobre a greve mediante plebiscitos ou intrumentos congêneres.  É certo que poderiam promover a consulta ou plebiscito que bem entendessem, mas é igualmente certo que jamais poderiam conferir mandato para que o Proifes firmasse um acordo com o governo com base nesse instrumento, uma vez que se trata de procedimento não apenas ilegal, mas expressamente descartado pela presidente do sindicato em documento por ela assinado de próprio punho. Não consta, todavia, qualquer ressalva ou destaque da representação da UFG junto ao Conselho Deliberativo do Proifes na decisão que, unanimemente, dispôs sobre a aceitação, naquela pequena e sectária federação, da proposta governamental. Agiram, pois, sem mandato, em situação de claro golpe político à ideia de respeito às bases e às decisões de assembleias.

6) De fato, o ex-presidente e principal figura pública do Proifes recebeu, em 2009, recursos do Governo Federal para estudar a carreira que deveria defender e em nome da qual deveria negociar. Ora, ainda que se possa classificar tal prática como lícita, não há dúvidas de que há uma mácula à ética na ciência (não se pode pesquisar um objeto que diz respeito à atuação sindical) ou, o que é igualmente grave, à ética sindical (não faz sentido receber dinheiro do patrão para pesquisar o objeto em que se contende com ele). Confiram este link, do Portal da Transparência, a provar o que alego.
É igualmente verdade que a referida federação representa apenas 7 universidades federais, dentre as quais ao menos duas - UFG e UFBA - continuam em greve e declararam, formalmente, não reconhecerem o Proifes como seu representante nesta greve.


Em suma, a ADUFG não cumpre a lei (artigo 4o da Lei de Greve), não respeita pactos que subscreve, tenta jogar colegas grevistas na ilegalidade e se posiciona, no Conselho do Proifes, favoravelmente a uma proposta governamental que é desastrosa para os professores e que, ademais, havia sido recusada por ampla maioria em assembleia de base. Não é possível, portanto, reconhecer tão ilegítima direção sindical.




Escrito por Socialista e Democrático às 21h48
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Car@s colegas,

Ontem, ao ler as manchetes dos jornais, bem como após apreciar as tabelas divulgadas nos sítios do MEC e do MPOG quanto ao nosso reajuste salarial, fiquei contente e empolgado. Um tanto infantil, como costumo ser no âmbito privado, cheguei a ligar para os meus pais e dar a boa notícia, além de sugerir um jantar em comemoração à minha esposa. A leitura apenas perfunctória dos dados seletivamente apresentados pelo Governo Federal conduziu-me à mesma sensação que costumava ter, quando adolescente, ao responder uma questão de matemática que, posteriormente, para a minha surpresa, se revelava destoante do gabarito. Nas ciências assim-chamadas exatas, sabemos, uma premissa equívoca ou uma pequena omissão quanto a um detalhe são suficientes para a produção de um grande erro.

O fato é que a proposta que nos fora apresentada na reunião de ontem implica, no que pertine à quase totalidade dos casos, uma redução do valor real dos nossos vencimentos. Em suma, compraremos, com o salário que nos será pago em 2015, menos produtos do que comprávamos em 2010 e muito, mas muito menos, do que comprávamos em 2006. Esta não é uma opinião política ou ideológica: é um dado da matemática, ancorado em uma conservadora projeção inflacionária.

O governo nos oferece, destarte, o seguinte: 1) redução do valor real dos nossos salários e; 2) exigência de aumento do tempo dedicado às aulas, que teria um piso - contrário à LDB - de 12 horas. Em resumo, nosso salário será menor e, ademais, teremos de passar mais tempo em sala de aula (atualmente, por exemplo, leciono oito horas semanais), as quais serão inevitavelmente subtraídas do nosso tempo para produção de livros, artigos e papers, ou para a condução de projetos de extensão (apenas para ilustrar, vejam que dedico precisamente quatro horas semanais à coordenação de um projeto de extensão voltado à divulgação das Ciências Sociais para jovens do ensino médio).


O texto a seguir, elaborado por um professor de matemática da UFSE, um pouco irônico, mas preciso quanto aos dados, esclarece com mais detalhes os pontos acima apresentados.

A nossa luta é justa, moderada e razoável. Em pouco tempo, acaso não revertamos o atual quadro, muitos de nós deixarão a universidade pública ou, quando menos, se verão inclinados a seguir um modelo comum nos EUA, país onde os resultados das investigações científicas são condicionados aos interesses políticos ou econômicos dos agentes financiadores. Pessoalmente, entendo esta maneira de produzir o saber acadêmico como inadequada e carente do rigor epistêmico que creio ser devido aos nossos trabalhos.

Um abraço a tod@s,

Franck

"Governo propõe redução salarial aos professores


Governo propõe redução salarial aos professores

O atual governo parece estar incomodado com a força que o movimento grevista dos docentes federais vem ganhando, tendo em vista as velhas técnicas anti-greve para desmobilizar a categoria e jogar a opinião pública contra esta. Contudo, conforme preceitua a etiqueta intelectual, não se deve engolir as informações sem antes mastigá-las bem. É isso que passaremos a fazer para tentar facilitar nossa digestão da proposta apresentada pelo governo na última sexta-feira 13. Primeiramente, a imprensa pareceu fingir não estar acontecendo nada muito importante para a sociedade. Passamos um mês de “descobertura” jornalística sobre o tema. Em seguida, o governo espalhou na mídia, principalmente na tv aberta, que nossa greve era precipitada, que poderíamos concluir o semestre, afinal faltava apenas um mês para isto. Começaram até os cochichos de ameaça de corte de ponto dos grevistas. O fato é que estas negociações vêm se arrastando desde 2009.
O passo seguinte foi o da última sexta-feira 13, após o anúncio de proposta definitiva do governo com relação à reestruturação da carreira e ao reajuste salarial dos docentes federais. A notícia que se alastra pelas mídias é que o benevolente governo concederá reajuste salarial de até 45% aos professores. Ora, porque continuar em greve então? Talvez achem que a capacidade de leitura e de matemática dos nossos professores anda tão ruim quanto o dos alunos despreparados e desmotivados que chegam em muitas universidades reféns de um ensino básico medíocre. Enganaram-se. A manchete que deveria estampar a capa de todos os jornais, após uma reflexão sobre os dados, é: Governo propõe redução salarial aos professores.
Vejamos no tira-teima, para utilizar um termo futebolístico bem brasileiro, o que realmente é proposto. Abaixo, apresento as tabelas relativas à remuneração atual e à proposta do governo. Tomei como exemplo apenas os cargos de dedicação exclusiva, defendida como prioritária pelas entidades sindicais para o melhor funcionamento do tripé ensino-pesquisa-extensão que sustenta nossas universidades públicas. E para não ficar muito confuso, analisemos apenas os mestres e doutores.


A interpretação do governo é que os professores terão aumento de até 45%. No entanto, se eu fosse o professor de matemática financeira do governo ele tiraria zero nesta questão. Cometeu um erro básico de comparar valores em períodos distintos. Ou será que foi deliberado? Será que realmente acredita que os R$100 de 2010 terão o mesmo valor de R$100 de 2015? Você lembra o que podia comprar com R$100 há cinco anos atrás? E hoje, consegue comprar os mesmos produtos? É claro que não. Vamos então enxergar qual é a verdadeira proposta governamental. Para isto, utilizando o IGP-M como nosso índice de mercado, transportemos os valores salariais de julho de 2010 para julho deste ano. Um cálculo que todo trabalhador deveria aprender a fazer mostra que o índice acumulado do IGP-M de julho de 2010 até junho de 2012 foi de 14,22%. Tudo bem, se não souberem podem usar um pouco que nova tecnologia e acessar o link no uol economia, não quero que percam nenhum detalhe http://economia.uol.com.br/iframefundos.jhtm?http://fundos.economia.uol.com.br/uol/calculadora-indices-inflacao/. Supondo, apenas por questões didáticas, que o último aumento seja dado em julho de 2015, não há muito esforço em aceitar uma projeção inflacionária para os próximos três anos de pelo menos 20%. Veja, aqui estou fazendo uma hipótese, e pela Lei de Murphy é provável que seja pior. Trazendo este valor também para o momento atual, julho de 2012, podemos comparar os dois valores.
Agora sim, podemos verificar os percentuais reais de aumento oferecidos pelo governo nessa proposta indecorosa de “reajuste” para baixo de salário. Isso para fixar apenas a questão salarial, mas a questão primária é a reestruturação da carreira que ficou muito distante da proposta do Andes-SN.
Como exercício de fixação, façamos cálculos análogos com o salário mínimo que é referência para a maioria da população brasileira. Primeiro, mostre que os atuais R$622 são realmente maiores do que os R$510 de julho de 2010. Agora a pergunta capciosa, se o governo anunciasse hoje que o salário mínimo sofreria aumentos consecutivos em três parcelas chegando a R$700 em julho de 2015, você aceitaria? Resolvam e tragam para a próxima aula. Por hoje é só.
Prof. Wagner Ferreira Santos
Departamento de Matemática
Universidade Federal de Sergipe
Campus Prof. Alberto Carvalho
Itabaiana-SE"











Escrito por Socialista e Democrático às 16h01
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TV UFG - Entrevista sobre os recentes escândalos de corrupção em Goiás



Escrito por Socialista e Democrático às 17h15
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Ativismo, democracia e partidos: um convite para o debate fraterno e respeitoso com a juventude militante.

 

Francisco Mata Machado Tavares (Franck) – Cientista Político

A juventude da cidade de Goiânia procedeu a um belíssimo passo para além do que alguns críticos chamariam de Slacktivism – a política acomodada e estéril presa à internet e suas redes sociais. Na ensolarada manhã de 14 de abril de 2012, milhares de pessoas, a imensa maioria das quais estudantes, realizaram um protesto pacífico contra o Governo de Marconi Perillo, enredado, segundo a Revista Carta Capital, em uma trama criminosa que sequestrou o Poder Público em Goiás, onde a população trabalhadora se revela crescentemente indignada com a negação de acesso a direitos, com os sucessivos casos de violência policial, com uma política educacional desastrosa e com práticas como a privatização por via oblíqua do sistema de saúde, por meio da tentativa de se conceder a rede hospitalar às organizações sociais. O exemplo de coragem, de seriedade política e de organização dos jovens goianienses certamente contribuirá para a democratização de uma unidade federativa hoje entregue ao que há de mais arcaico e autoritário na política nacional.

Há, contudo, um aspecto dos protestos de 14 de abril que, fraternal e democraticamente, enseja ponderações. Trata-se do fato de que, no decorrer do ato público, ativistas de partidos de esquerda, como o PSOL e o PSTU, tiveram as respectivas falas cassadas e, quando tentaram expressar seu apoio ao movimento, foram peremptoriamente vaiados. É justo e compreensível que os jovens crescidos na década de 90, desapontados em âmbito global com as mentiras da social-democracia e do stalinismo e vitimados localmente pela degeneração burocrática petista, desconfiem dos partidos. Não parece seguir desta premissa, contudo, a correção moral e política da censura aos militantes de partidos e à defesa pública das respectivas ideias.

Não se quer, nestas linhas, afirmar-se uma longa crítica aos jovens que hoje calaram a expressão dos militantes filiados a agremiações partidárias. Tampouco é objetivo deste texto propor um longo arrazoado teórico que procuraria discutir os partidos anti-regime, de Luxemburgo a Balibar, de Lenin a Negri; ou a teoria política sobre partidos institucionais, de Olavo Brasil a Ranulfo, de Wolinetz a Ware, ou de Katz & Mair a Gunther & Diamond. Não! O que se intenciona, aqui, é uma proposta bem mais simples e modesta. Objetiva-se conhecer as razões que levam alguns jovens a rechaçarem tão veementemente todos os partidos políticos, como se fossem iguais entre si e igualmente abjetos. Assim, dirige-se à juventude que hoje calou os militantes partidários, como os apoiadores do governo de Goiás querem calar a imprensa, as seguintes perguntas, como meio de iniciar um horizontal e respeitoso debate:

  1.  
    1. Se os partidos são, todos, inimigos da democracia, da liberdade e da auto-organização, por qual razão todas as ditaduras, sem exceção, impediram a livre organização partidária e não aceitaram a existência de agremiações trotskistas ou democrático-socialistas? Quem, na história da humanidade, além das ditaduras mais truculentas já conhecidas – como o stalinismo, o fascismo e os regimes autoritários da América Latina – já impediu o direito de expressão pública de partidos trotskistas (como o PSTU e parte significativa do PSOL)? É esta vossa fonte de inspiração?

    2. Em um protesto contra o governo do Estado que se revela realmente democrático, não deveriam ser ouvidas todas as vozes que se opõem ao referido governo? Quem decide (e com que legitimidade o faz) que uma parte das pessoas aderentes à mesma causa – os ativistas de partidos contrários a Perillo – deve ser silenciada e censurada?

    3. Seriam os jovens realmente tão ingênuos, fracos e volúveis, de modo que a simples concessão do direito de livre expressão aos partidos políticos os tornaria presas fáceis de processos de cooptação ou de instrumentalização?

    4. Uma ONG financiada por empresários e pelo Estado é mais legítima do que um partido custeado apenas por contribuições voluntárias dos respectivos militantes e simpatizantes?

    5. Apenas individualidades devem se expressar politicamente, de modo que partidos, movimentos sociais, sindicatos e organizações revolucionárias devem ser banidas da política? Não é o liberalismo extremo, hoje reinante no mundo em que estamos, quem propõe esta noção filosófica hiper-individualista e caótica da sociedade? Em que se diferenciam aqueles que entendem que o indivíduo é a unidade última e soberana da sociedade política em relação à prática e à teoria de grandes banqueiros e governantes?

    6. Se toda forma de organização coletiva é opressora e se toda decisão decorrente de voto é ilegítima, como garantirmos que atos de protesto não incorram em uma cacofonia de dezenas de microfones falando ao mesmo tempo (como no dia 14 de abril em Goiânia...) e na babelização da política, em que ninguém quer ouvir e todos querem falar apenas para alimentar os próprios impulsos catárticos individuais?

    7. Como podemos viver em sociedade sem entendermos que há o outro e que, constatada a alteridade, precisamos organizar o tempo da fala, a tática da ação coletiva e a estratégia dos nossos projetos comuns, sob pena de incorrermos em uma histeria sem um dia seguinte histórico?

    8. Quando, na história da modernidade, grandes transformações sociais encontraram longevidade quando se iniciaram cerceando a liberdade de expressão e de participação dos militantes de partidos que apoiavam as causas insurgentes?

    9. Há ao menos um argumento contra os partidos políticos que se aplique às agremiações auto-financiadas e não orientadas prioritariamente à vitória eleitoral (disputam eleições apenas para apresentar as suas ideias, mas não para mudar o mundo por meio das urnas), como é o caso do PSTU, do PCB, de muitas correntes do PSOL e do PCR, para limitar a questão a exemplos brasileiros?

Com toda a admiração aos movimentos de protesto organizados pela juventude e com todo o respeito àqueles que optam por não se juntar a partidos, movimentos sociais e sindicatos, entende-se que a resposta às questões acima – todas elas – é indispensável para que se diferencie, caso seja possível, a censura e a cassação aos ativistas partidários trotskistas e socialistas-democráticos que, honestamente, aderem a causas coletivas, dos atos de perseguição que estes mesmos grupos têm sofrido, ao longo da história, sob o jugo das piores ditaduras. Enfim, não integrar um partido é um direito sagrado. Censurar-lhe, contudo, pode ser um erro fatal, com precedente histórico apenas nos mais nefastos regimes já experimentados!

Goiânia, 14 de abril de 2012



Escrito por Socialista e Democrático às 19h46
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Moção de Repúdio da FCS/UFG

MOÇÃO DE REPÚDIO

 

O Conselho Diretor da Faculdade de Ciências Sociais da UFG delibera por repudiar as medidas contidas na política públicaPacto pela Educação, implementadas pelo Governo do Estado de Goiás, e, consequentemente, manifesta apoio à greve dos profissionais da educação estadual, como lícito e legítimo meio de protesto em objeção ao conjunto de ações em questão.

Primeiramente, preocupa-nos a desvalorização da carreira do magistério no âmbito da rede pública estadual de ensino. A subtração de incentivos à qualificação dos docentes, por exemplo, implica imediato e significativo prejuízo à qualidade da educação.

Ademais, a unilateral imposição de uma matriz curricular unificada para o ensino médio, em cujos termos se nota a redução da carga horária atinente a importantíssimas disciplinas para a formação dos jovens, se revela como uma política orientada estritamente à lógica de uma questionável economia de recursos públicos, em detrimento do adequado provimento do direito fundamental à educação de qualidade.

Assim, manifestamo-nos publicamente contra o que entendemos como um retrocesso em relação às conquistas obtidas após um árduo e longo processo de lutas, debates e aprendizados.

 

Goiânia, 16 de fevereiro de 2012

 

 

Conselho Diretor da Faculdade de Ciências Sociais

Universidade Federal de Goiás



Escrito por Socialista e Democrático às 10h33
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O subterrâneo inconfessável do capitalismo brasileiro

Não é novidade que o balanço de pagamentos positivo da economia brasileira, âncora do atual momento de crescimento, repousa, em essência, sobre commodities minerais e agrícolas e, no que tange a produtos de maior valor agregado, na agroindústria. Esta, aliás, percebe vultosas somas de recursos públicos, conforme questionáveis financiamentos do BNDES concedidos a empresas como a Friboi, que não hesitam em semear desemprego quando se trata de aumentar seus lucros às expensas do erário. O que poucos sabem é que, do oeste catarinense ao Distrito Federal, a riqueza de companhias como a Sadia - cujo gestor, Furlan, fora ministro do governo petista de Lula - decorre de uma exploração do trabalho em níveis extremos, degradantes e violentos. A base do desenvolvimentismo lulista, oculta à fria lógica das planilhas de acadêmicos trancafiados em seus gabinetes, reside, em parte, na redução de seres humanos a condição análoga à de escravos. Vejam um lamentável exemplo das práticas exercidas por uma empresa cujo poder econômico e político é de tão modo exacerbado que até a indicação de um importante ministério em governo petista já logrou efetivar. A matéria jornalística exibida  aqui dá conta da redução de migrantes a uma condição análoga à escravidão em fábrica localizada no Distrito Federal, bem próxima do palácio onde o acionista da companhia, Furlan, sitiara o Poder Público em favor de seus interesses particulares, quando ministro exaltado e querido por Lula.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 12h01
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A verdade do tucanato revelada em Goiás: truculência iletrada.

O PSDB de Goiás é um híbrido de suas seções paulista e mineira. Como esta, adota o mal-definido "choque de gestão" e propõe medidas privatizantes, como a conversão de hospitais públicos em Organizações Sociais. Como aquela, encerra posturas antissindicais (vejo o vídeo abaixo), comanda uma polícia reiteradamente acusada de lesões aos direitos humanos e de assassinatos (como revelado pela Operação 6o mandamento, da Polĩcia Federal), além de retirar os pobres das ruas, conforme a cartilha protofascista da agremiação. O vídeo a seguir mostra que há, todavia, uma peculiaridade deste partido aqui nestas paragens: a farsa do verniz intelectual de FHC ou Anastasia é, aqui, substituída pela verdade de uma ignorância truculenta, iletrada, decadente e... Rídícula. Divirtam-se com o vídeo a seguir: 



Escrito por Socialista e Democrático às 10h28
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BRASIL, Centro-Oeste, GOIANIA, SETOR BELA VISTA, Homem, de 26 a 35 anos
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