Palavra Socialista


Carta Aberta às/aos Amig@s e Companheir@s

Caríssim@s Companheir@s e amig@s,

Desde a queda dos regimes stalinistas ao final do século XX, um vendaval oportunista assolou o que de mais precioso se edificou em toda a modernidade ocidental, é dizer, as organizações independentes dos trabalhadores, sem as quais os desígnios de emancipação social, autonomia, razão e liberdade jamais podem se tornar realidade histórica, condenando-se eternamente à precária condição de promessas enganosas, elegantemente definidas pelo cinismo da filosofia liberal como horizontes regulativos.

O fim das tiranias conduzidas pelas burocracias coincidiu com um sério descrédito do projeto de uma sociedade socialista, ao tempo em que capitalistas e antigos ativistas da esquerda coincidiram em, menos por ingenuidade e mais por oportunismo, propagar duas errôneas lógicas, quais sejam:

a) a de entender que o ocaso de um projeto revolucionário na antiga URSS implicaria, por inferência indutiva, o malogro de qualquer tentativa histórica de superação do capitalismo, de tomada do poder pelos trabalhadores e de implantação do modo de produção socialista, expressando-se, assim, uma delirante metodologia da história, segundo a qual um caso empírico permite a formulação de uma regra atemporal e;

b)a de atribuir-se aos regimes burocráticos não apenas a equivocada caracterização de Estados Socialistas, como a exclusividade do referido predicado, de tal arte que se associou inarredável e absolutamente o socialismo ao stalinismo, como se de significante (socialismo) e de significado histórico (stalinismo) se tratassem. Derrotado o modelo em comento, antigos PC´s, social-democratas e até mesmo muitos auto-proclamados trotskistas abdicaram da luta por uma sociedade em que não haja dominação da humanidade pela humanidade e se enclausuraram nos aparatos do Estado, dos sindicatos e das ONG´s.  Todos nós conhecemos aos menos uma dúzia de pessoas que, outrora militantes, hoje são gestores comissionados de políticas públicas, assessores semi-vitalícios de sindicatos, executivos de ONG´s ou redatores de projetos para captação de recursos junto ao Estado ou ao mercado. Enquanto isso, a renda se concentra, a finança se mundializa, a repressão se exacerba e muitos, outrora camaradas na luta contra tais ataques, dão de  ombros e buscam se adaptar à mais nova forma de acumulação privada e exploração do trabalho, a atender pelo nome de terceiro setor. Mas nem tudo é desolação...

Há um partido que ainda sustenta a necessidade de internacionalização da luta dos trabalhadores e sabe que, tendo em vista a derrota histórica da doutrina do socialismo em um só país e a necessidade de enfrentamento global contra ofensivas do capital apátrida, se constitui como seção brasileira de uma organização internacional.

Há um partido que, coerente com o materialismo histórico e com o aforismo marxiano de que "a emancipação dos trabalhadores será obra dos próprios trabalhadores", não se financia por projetos ou convênios, mas mediante a contribuição daqueles que se identificam com seu programa.

Há um partido que conhece a história e sabe que pouquíssimos na esquerda objetaram o stalinismo, mas foram imprescindíveis na preservação do marxismo.  Há um partido que compreende que muitos não anteviram o colapso da social-democracia, dado seu caráter estruturalmente capitalista e afeito à acumulação privada, mas que jamais se isentou de denunciá-la.  Há um partido que não ignora que, desde as Guerras de Independência até a doutrina da aliança com uma certa burguesia nacional, poucos foram os que, em nosso subcontinente, resistiram ao canto sedutor, mas enganoso, dos caudilhos e líderes carismáticos, cuja atuação não se submete à democracia operária e cujas trajetórias não se forjam nas lutas sociais. Há um partido que, mesmo temporariamente minoritário no âmbito da esquerda, preserva sua responsabilidade diante dos trabalhadores e se nega a semear ilusões.

Há um partido que não se proclama dono da verdade ou única força em favor da superação do capitalismo, mas que apresenta suas contribuições e se engaja em cada tarefa, por mais simples que seja, na resistência contra a exploração e no avanço rumo ao socialismo. Não se trata de um clube intelectual, tampouco de uma seita. É um partido que se vê nas greves, nos atos públicos, nas ocupações estudantis, nas assembléias fabris, nas ações diretas e nos protestos.

Há um partido que ainda cultiva a moral proletária e, assim, não poupa sequer seus altos dirigentes quando se trata de assegurar, a qualquer custo, princípios como a igualdade de gênero, a independência perante o Estado e a defesa intransigente dos trabalhadores e da independência de suas organizações.

Há um partido que pode dizer aos trabalhadores do Haiti que está ao lado de suas lutas, haja vista que, no Brasil, se opõe ao governo que os oprime militarmente. Há um partido que não se associa às oligarquias argentinas, em arroubo esquerdista, de modo a defender os que têm fome contra os lock-outs do agronegócio sojeiro.

Há um partido que se empenha, junto a outros companheiros, na construção de uma central sindical cuja recente formação não a impede de se constituir como ponto de apoio daqueles que resistem às demissões na Embraer e na Vale, e de todas e todos os que sabem que, para além das burocracias sindicais atreladas ao governo, há uma legião de pessoas sinceras em busca da autônoma construção de alternativas à  grave crise econômica ora a assolar a humanidade. Há, igualmente, um partido que se engaja na reconstrução do movimento estudantil, para além do irrecuperável atrelamento da UNE à máquina governamental.

Há um partido que respeita a democracia interna, tão esquecida em tempos de vendaval oportunista e, a um só tempo, sabe da importância de se atuar disciplinada e unitariamente contra os seus inimigos, o que também anda pouco presente em tempos de apologia do suposto pluralismo de ações que, de fato, só produz historicamente a esterelidade das práticas de resistência social. Não é o partido em que os militantes são amordaçados e, precisamente por isso, também não é o partido em que tudo vale e em que cada qual age isolada ou indisciplinadamente.

Há, ainda, um partido socialista, revolucionário,  jamais corrompido pelo stalinismo ou pela social-democracia, organizado segundo a democracia operária, auto-financiado e internacionalmente constituído com vistas à reconstrução da IV Internacional e à emancipação de todos os trabalhadores do mundo.

Hoje me filio e inicio minha militância nesse partido, o PSTU, seção brasileira da Liga Internacional dos Trabalhadores - LIT-QI. O faço com muita alegria e orgulho e, permitam-me dizer, com a convicção pessoal de que, finalmente, estou em casa, estou entre camaradas! Convido cada um de vocês a conhecer a atuação do PSTU, a discutir o respectivo programa e, caso assim entendam, a se somarem nesta imprescindível luta por um mundo sem dominação.

Saudações marxistas,

Franck

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 01h48
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Jose Martí: uma referência universal para os oprimidos. Parte I

José Martí não é apenas uma figura relevante no contexto das artes, da história política ou do pensamento latino-americano. Trata-se, em verdade, de líder revolucionário, poeta, ensaísta e teórico cujo significado se comunica a toda a humanidade e o permite equiparar-se às principais referências do pensamento ocidental. Martí anteviu o imperialismo, posteriormente tão bem diagnosticado e denunciado por Lênin. Em polêmicas com um líder independentista cubano, o general Gómez, sustentou, chegando a se isolar politicamente por certo ínterim, a primazia da liderança política sobre a militar, de modo a se evitar o fenômeno do caudilhismo. O que disse Martí (então minoritário ou mesmo isolado) para o General, hoje se pode dizer a dirigentes de índole caudilhista-bonapartista como H. Chavez: "Um povo não se funda, general, pelos métodos com que se manda em um acampamento". A iminência do capitalismo monopolista fora antevista e rechaçada por Martí. A origem nada igualitária ou livre do constitucionalismo estadunidense, ancorado sobre o extermínio de indígenas e a escravização dos negros, permite que sejam identificados signos de ingenuidade no alumbramento de autores como H. Arendt e J. Habermas em relação à fundação daquele país. As defesa de que há uma só humanidade, para além de raças e discriminações congêneres, bem como de que o conflito social entre trabalhadores e proprietários tenderia a definir as lutas dos tempos vindouros pautou, com caráter quase profético, os escritos do pensador. Martí sabia que, assim como a independência de Cuba perante a Espanha, era  tarefa fundamental conter-se a expansão imperialista estadunidense. Nesse sentido, influenciou a primeira fase dos revolucionários cubanos, para quem a ruptura com o domínio dos EUA  intermediado pelo ditador Fulgencio Batista, não poderia significar uma nova subjugação, desta vez pela burocracia soviética. Abaixo, oferece-se um fichamento de pequena fração da obra de um pensador tão relevante e, paradoxalmente, tão esquecido:

 

 

Notas de Textos Extraídos de José Martí e de Comentários à Respectiva Obra

  • Martí exerceu considerável influência sobre a revolução cubana e, igualmente, sobre os documentos políticos e normativos conformadores do Estado socialista advindo do referido processo de ruptura política.

  • O pensamento de Martí se define por patente e impressionante extemporaneidade, o que se evidencia no fato de permanecer subversivo um século após sua morte.

  • Martí é uma referência ímpar e de arraigada expressão nas artes e no pensamento humanístico hispano-americano, conforme se infere do fato de ser admirado, por exemplo, por Darío, Reyes e Mistral.

  • José Martí nasceu no ano de 1853, época em que coexistiam pensamentos críticos à condição da colônia cubana, como, por um lado, o de Delmonte que, em Madrid, preconizava que os problemas de Cuba não seriam sanados por meio de uma separação perante a Espanha, mas mediante reformas que atribuíssem autonomia à ilha e mais equânime integração com o colonizador europeu; e, por outro lado, o de Félix Varela um presbítero que, na Flórida, defendia a efetiva independência da ilha. A tese independentista, aliás, teve como pioneiro adepto Antônio Aponte, um artesão negro que fora executado em 1812.

  • Em suma, integravam o ambiente de crítica à Espanha, à época em que nasceu José Martí, as seguintes teses: a) Independência (Varela); b) Reformas, sem independência (Delmonte) e; c) Anexação aos Estados Unidos (sustentada pelo Venezuelano Narciso López).

  • Notas biográficas sobre José Martí: filho de humildes espanhóis que migraram para Cuba, umas das últimas colônias remanescentes da Espanha. A principal influência do pensador foi Rafael Maria Mendive, um professor, poeta e diretor de escola, cujo papel em relação à formação de Martí se definiu como algo análogo ao de um preceptor. Um dado impressionante acerca do precoce talento intelectual de Martí é o fato de que, aos treze anos, o autor já traduzira Byron e iniciara semelhante trabalho com Hamlet.

  • Martí, ainda aos 15 anos, adere à chamada “Revolução de Yara”, um movimento independentista, em 1868. O autor escreve poemas e ajuda a editar revistas independentistas. À época, Mendive tem seu colégio fechado, é preso e deportado.

  • Em 1870, Martí é preso em razão de ter redigido uma carta em apoio à independência de Cuba. Afinal, em 1871, Martí segue para a Espanha;

  • Na Espanha, entre 1871 e 1874, Martí estuda direito, filosofia e letras. Da Espanha, segue para França, México e Nova Iorque. Em 1878, durante uma trégua da guerra dos dez anos, Martí tenta voltar definitivamente a Cuba, mas, em 1879, é deportado para a Espanha.

  • Entre 1881 e 1895 o pensador se fixa em Nova Iorque, o que, destarte, o influencia significativamente. As constantes viagens de José Martí conformaram, em apertada síntese, as seguintes influências: a) Espanha: o país influenciou Martí a partir de seu povo, seus costumes e, muito especialmente, da certeza quanto à alteridade em relação à América Latina; b) A. Latina: ao viajar por outros países da Hispano-américa, Martí identifica uma unidade em relação a Cuba que, posteriormente, lhe permitirá cunhar a idéia de uma “Nossa América”, em oposição à “América Européia”, anglo-saxônica.

  • Em NY, uma vez em contato com outros independentistas, Martí se revela peculiarmente radical e ansioso em relação aos seus pares, manifestando, assim, um desejo de pronta retomada dos combates.

  • Em 1884, Martí rompe com generais insurgentes, em especial Goméz, ao sustentar que a liderança política deveria prevalecer sobre a militar. O pensador antevê nos rumos militaristas da luta pela independência cubana um risco de surgimento do caudilhismo que observou em outras repúblicas latino-americanas. Diz o autor: “Um povo não se funda, general, pelos métodos com que se manda em um acampamento”.

  • Em decorrência de suas divergências com a preponderante linha militarista dos insurgentes cubanos, Martí se submete, por considerável interregno, ao isolamento, assim entendido como distanciamento em relação a tarefas concretas do movimento insurrecional. Nesse período, o autor se presta a escrever em demasia, notadamente em jornais.

  • Os escritos de Martí empolgam e comovem. O público se impressiona com o pensador e, ao tempo em que ele convoca os generais – Gomez, em especial – ao combate, já é o escritor mais lido e admirado em Cuba.

  • Marti foi considerado por Sarmiento um autor de explosivo estilo, somente comparável ao de Vitor Hugo. Dário o tinha como o mais brilhante escritor, dentre todos os espanhóis e americanos.

  • Ainda em 1889, Martí antevê os desígnios colonialistas e pan-americanistas dos Estados Unidos.

  • Martí temia que, ao atuarem como mediadores de um possível conflito entre Cuba e Espanha, os EUA poderiam se valer dessa posição para reporem a dominação espanhola por sua próprio domínio sobre a ilha.

  • Martí ocupou inúmeras posições consulares e chegou a ser representante do Uruguai na primeira conferência monetária internacional, convocada pelos EUA com o objetivo de se instituir uma união monetária entre os países da América. Era a gênese histórica de projetos como a economia baseada no padrão-dólar, ou mesmo alianças como NAFTA e ALCA.

  • Em 1891, o líder revolucionário sob estudo abandona todas as suas posições profissionais e engaja-se integralmente na luta pela independência de seu país de origem. Em 1892, redige as “Bases do Partido Revolucionário Cubano”, o qual é proclamado em abril daquele ano. Posteriormente, reconcilia-se com o general Gómez e, juntos, concentram esforços em favor da obtenção de fundos e adesões para a guerra de independência.

  • Em um momento em que se acreditava na força ou mesmo na inevitabilidade da independência cubana, durante o ano de 1895, os insurgentes perdem armas importantes na Flórida, o que ocorreu em decorrência de uma traição interna seguida de sabotagem praticada pelos EUA. O fato é que, para os EUA, uma rápida vitória da independência cubana obstaria os planos de mediação do conflito com a Espanha, seguida de influência imperial sobre a ilha latino-americana.



Escrito por Socialista e Democrático às 14h20
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José Martí: Uma referência universal para os oprimidos. Parte II

 

  • Um importante documento independentista foi lançado por Gómez e Martí no ano de 1895. Trata-se do “Manifesto de Montecristi, em cuja teor se lia que “A revolução independentista, iniciada em Yara após uma preparação gloriosa e cruenta, entra num novo período de guerra em Cuba, em virtude da ordem e dos acordos do Parlamento Revolucionário, no exterior e na ilha, e da exemplar congregação, nele, dos elementos consagrados ao saneamento e à emancipação do país, para o bem da América e do mundo”.

  • As divergências entre o comando militar e civil das lutas por independência, contudo, não tardaram a ressurgir. Neste caso, todavia , o General Gómez fica ao lado de José Martí.

  • Pouco antes de morrer, o autor, em cartas, enfatiza a dupla tarefa a que se propusera, concernente na emancipação de Cuba perante a Espanha mas, igualmente, na obstrução de um avanço imperialista dos Estados Unidos sobre a Ilha. Cuba, para Martí, deveria ser uma trincheira a impedir que a influência imperialista dos EUA seguisse caminho pela América Latina.

  • O pensador morreu em maio de 1895, em combate, atacado por forças espanholas.

  • Martí, aos olhos ocidentais, seria inclassificável, ao tempo em que sua trajetória não se subsume aos cortes e classificações funcionais e temáticos tão caros à modernidade ocidental. O pensador, com efeito, não é um egresso do capitalismo industrial e sua correspondente divisão funcional. Sob tal premissa pode-se entender como o autor se voltou, concomitantemente, a múltiplas práticas, como a poesia, a luta armada, a teoria e a literatura infantil, dentre outras.

  • O pensamento de José Martí expressa, reiteradamente, uma reação ao eurocentrismo e à clivagem entre civilização e barbárie. Martí, em claro diálogo com Sarmiento, afirma que “não há conflito entre civilização e barbárie e, sim, entre a falsa erudição e a natureza”.

  • No que se refere aos EUA e seu potencial imperialista, Martí é de tal modo enfático que chega a se reportar ao temor quanto surgimento de uma “Roma americana”. Como Porto-rico evidencia, os piores prognósticos do pensador acabaram por se confirmar.

  • Martí, um profundo conhecedor dos EUA, denuncia o caráter contraditório dos direitos civis positivados na Constituição daquele país e os desígnios da acumulação capitalista.

  • Uma nota estético-política, a partir da qual podemos dizer que o poeta em análise fora um profeta ou, quando menos, precursor da antropofagia modernista. Veja o que escreveu Martí: “Enxerte-se em nossas repúblicas o mundo. Mas o tronco terá que ser o de nossas repúblicas”.

  • Como já exposto, Martí se propôs a duas tarefas histórico-políticas: a) a independência política de Cuba perante a Espanha e; b) a obstrução da expansão imperialista estadunidense. Destarte, por razões táticas, o revolucionário manifestou uma tendência ao silêncio em face dos conflitos sociais – os quais não ignorava – de modo a assegurar a unidade de uma frente multiclassista em favor da independência cubana.

  • De qualquer modo, o autor anteviu conflitos sociais nos EUA com natureza semelhante àqueles que Marx equacionou como resultantes da tensão entre capital e trabalho. Confira-se: “Aqui, onde os trabalhadores são fortes, lutarão e vencerão os trabalhadores. Os problemas se retardam, mas não se desvanecem. (...) Em outras terras travam-se conflitos raciais e batalhas políticas. E nesta terra se travará a terrível batalha social”.

  • Em texto redigido por ocasião da morte de Darwin, Martí manifesta um espiritualismo, assim entendido pelo autor como inarredável “metade do ser”. O pensador fora, contudo, um constante anticlericalista.

  • A arte se definia, nas palavras do poeta, como “o caminho mais curto para chegar ao triunfo da verdade e colocá-la, de forma que perdure e cintile, nas mentes e nos corações.”

  • Há um instigante paradoxo na estética literária de José Martí: o autor desdenhava dos romances e das ficções, de maneira a optar pela lógica utilitária de cartas ou textos jornalísticos. Nestes, todavia, nota-se rara beleza literária. Ademais, deve-se ressaltar a vasta e ímpar obra poética que lavrou.

  • Martí afirma, apaixonadamente, sua identificação com a América do índio Juárez, em detrimento da cultura anglo-saxônica em que Lincoln se forjou. Os EUA teriam se tornado, nas palavras do autor, “uma grande República que se enlouqueceu com o poder”. Lado outro, reconhece-se a força moral e os anseios por liberdade inerentes aos povos que edificaram a América do Norte. O que se deu, todavia, nas palavras de Martí, foi que “a liberdade que triunfa... é senhoril e sectária... mas local do que da humanidade... egoísta e injusta, sobre os ombros de uma raça escrava”. Ao que parece, autores como Habermas e H. Arendt não conheceram a obra de Martí, ao tempo em que identificam na fundação constitucional dos EUA uma igualdade política e uma liberdade civil de resto ausentes da realidade de negros e índios.

  • A dramática história de conquista dos povos indígenas pelo colonizador espanhol, influenciada em grande medida por rivalidades e divisões entre aqueles, permite a lembrança, do modo como é contada por Martí, à música “canção pela unidade latino-americana”, de Pablo Milanez.

  • Martí, se antecipando ao que hoje seria uma crítica consistente a um ativismo ansioso e estéril de alguns movimentos sociais e ONG´s, atribui dignidade política à elaboração conceitual, teórica e discursiva, o que se manifesta, por exemplo, na lírica assertiva de que “trincheiras de idéias valem mais do que as de pedras”.

  • Em “Nossa América”, há virulentas críticas contra a idéia de uma aliança entre a América hispânica e norte anglo-saxão, conforme se depreende da exemplificativa passagem a seguir: “... estes desertores que pedem fuzil aos exércitos da América do Norte, que afoga em sangue seus índios e que vai de mal a pior”.

  • Há, ainda, na obra supracitada, exemplos de veemente afirmação das tradições da América Espanhola contra a cultura européia, consoante se infere do seguinte excerto: “o livro importado foi vencido, na América, pelo homem natural”. E, uma vez mais, recobra-se a crítica oferecida a Sarmiento: “não há batalha entre civilização e barbárie, mas sim entre a falsa erudição e natureza”.

  • Martí defende um conhecimento adequado às peculiaridades da América, o que implica uma universidade própria, uma abordagem própria (e.g estudar-se os incas mais do que os gregos) e um aprendizado das práticas relacionadas ao governo condizentes com o caráter sui generis da América. O autor argumenta contra o despropósito daqueles que, além-mar, aprenderam a governar a França e a Inglaterra, mas nunca o próprio povo que pretendiam liderar.

  • Martí expressa contentamento com o que identifica como uma juventude que já começa a se perguntar sobre as peculiaridades americanas, a criar antes de copiar, de tal arte de cunham o pensamento próprio da América. Poeticamente, o pensador ilustra tal atitude nos seguintes termos: “o vinho é de banana e, se sair ácido, é o nosso vinho”.

  • Novamente, destaca-se que, na obra do pensador em apreço, o grande perigo e ameaça para a definitiva constituição de uma identidade, uma política, uma estética, uma história e, assim, um ethos latino-americano, seria a América do Norte, constituída por um povo, nas palavras do autor, “empreendor e pujante”, que “desconhece e desdenha da ‘nossa américa’’.

  • Os EUA propuseram, em 1888, um convite a todos os povos da América e ao Reino do Havaí, para que se efetivasse, em Washington, uma conferência orientada à adoção de uma moeda comum entre os países participantes. Martí objetava tal iniciativa com fulcro, dentre outros, nos seguintes argumentos: a) não pode ser acatada sem profunda reflexão, como fruto de um alumbramento latino diante da prosperidade estadunidense, de sorte que seria necessário um profundo exame dos interesses envolvidos, da força de cada país aderente à união monetária e das possíveis conseqüências advindas da aliança. Sob tal propósito, Martí afirma que “governar é prever”; b) Os EUA seriam constituídos por povos que extinguiram os índios, escravizaram os negros e, a um só tempo, desprezariam e desconheceriam a Hispano-américa. Seria inconveniente, destarte, uma aliança com essa gente; c) Para Martí, uma União econômica implica uma união política, de tal arte que o povo economicamente mais forte tende a dominar o mais fraco e; d) A aliança econômica, por meio de uma moeda comum, ensejaria um isolamento do subcontinente em relação à Europa.

  • Em “Minha Raça” Martí apresenta algo que, atualmente, é uma noção relativamente consensual, concernente na distinção entre as práticas racistas e as condutas tendentes à reivindicação de direitos por um povo oprimido, a exemplo dos escravos negros.

  • É interessante notar como, ainda no século XIX, Martí preconiza a solução da questão racial em termos transformativos, antes de afirmativos. Raça, aliás, era um conceito equivocado para o autor, de sorte que não caberia a ninguém, brancos ou negros, afirmam tal categoria, mas, em verdade, tratar-se-ia de idéia a ser superada e banida, em favor da igualdade entre os seres humanos.

  • O autor escreveu que “a afinidade das peculiaridades é mais poderosa do que a afinidade de cor”, antevendo o argumento de que, antes de clivagens raciais ou étnicas, as diferenças sociais que definem os partidos é que deveriam ser trazidas ao debate público.

  • Em texto redigido por ocasião da morte de K. Marx, escreveu Martí que o pensador comunista “estudou as formas de assentar o mundo sobre novas bases, despertou os adormecidos e lhes ensinou o modo de lançar por terra as estruturas quebradas”.

  • Em “professores ambulantes”, o pensador cubano defendeu que deveria haver docentes itinerantes, com a tarefa de levarem conhecimento aos camponeses distantes.

  • A liberdade, para Martí, seria tão essencial quanto o ar e a luz. Os professores ambulantes far-se-iam necessários à medida em que, segundo o autor, “ser culto é a única maneira de ser livre”.

  • Martí, gênese de Paulo Freire: o professor atuaria com os alunos (e suas realidades ou dúvidas específicas), antes de fazê-lo contra os alunos (lecionando-lhes um conteúdo que não lhes faria sentido).

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 14h14
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