Palavra Socialista


Há vinte anos quedava-se o muro do vergonha...

Caiu o Muro de Berlim há vinte anos e, ali, uma veemente recusa à burocratização da vida humana, à restrição das liberdades coletivas e individuais e à traição do projeto socialista teve lugar. Os marxistas foram os primeiros a combater os vícios da burocratização e os primeiros a dissociarem socialismo das tiranias de inspiração stalinista. Seja em "A Revolução Traída", publicada por Trotsky ainda na década de 30 do século XX, seja nos estudos da Teoria Crítica, nos escritos de Gramsci, ou mesmo de Lukács, os mais consistentes opositores daquilo que, mais tarde, seria definido por Habermas como "colonização do mundo da vida pelo sistema do Estado", são egressos do marxismo. O próprio colpaso econômico dos regimes inspirados na burocracia soviética se deve, precisamente, ao que há de alheio ao socialismo naquelas conformações econômico-políticas, como a manutenção ad infinitum do trabalho remunerado por peça, a tese do socialismo em um só país e o controle da inovação por uma diminuta e auto-interessada casta dirigente do aparato estatal-partidário. É de se celebrar, pois, em nome do socialismo, essa efeméride.

Mas a liberdade, contudo, ainda não foi conquistada no leste ou nestas paragens. Se a stasi controlova minuciosamente a vida dos indivíduos na Berlim oriental, hoje celulares, blackberries e toda sorte de dispositivo atrelam o trabalhador à eterna disponibilidade - e controle - por seus patrões. Se nada podia ser dito ou expressado em desagrado à tirania no controle do Estado, agora nada vem a público, senão convertendo-se em mercadoria e degenerando-se em mecanismo ensejador de acumulação de recursos. Ontem, as pessoas saiam as ruas e não podiam conversar livremente, debater, viver a vida. Hoje, saem e encontram espaços privatizados, onde tudo o que lhes resta é comprar-consumir ou trabalhar. Ainda não há liberdade e por ela devem se levantar os socialistas!

Que caia o Muro de Tijuana!

Que caia o Muro de Israel!

Que caiam os Muros das Favelas Cariocas!

Que a humanidade possa viver livre da dominação burocrática, mas igualmente livre da reificação imposta pelo regime do capital.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 12h41
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Um ano de Obama: "so, what?"

Completa-se hoje um ano da eleição de Obama à presidência estadunidense. Democrata, negro, neto de fiéis do islã e respaldado por um sentimento de revolta contra a catástrofe econômica permitida - e, em certa medida, engendrada - pelo governo Neocon de Bush, o atual presidente dos Estados Unidos da América tem decepcionado aqueles que acreditavam em frases tão fortes quanto distantes do atual comando da Casa Branca, como "Change, we need", ou "Yes, we can". Confira-se:

1) As tropas estadunidenses permanecem no Iraque e, quanto ao Afeganistão, foram significativamente reforçadas, mantendo-se, assim, a lógica do "clash of civilizations" como abordagem das tensões geopolíticas contemporâneas.

2) Bancos e demais financistas receberam valores maiúsculos do tesouro estadunidense - algo como um PROER exponencialmente majorado - sem que significativas contrapartidas ou prescrições regulatórias acompanhassem as benesses. Como resultado, há uma bomba relógio fiscal na primeira economia do mundo e rearmou-se o cassino especulativo dentre instituições financeiras, como se a crise deflagrada em 2008 nada tivesse a ensinar ou já se encontrasse definitivamente superada.

3) O emprego, especialmente industrial, continua em queda nos EUA. Assim, não é exagero constatar que Obama focou seu mandato, até aqui, em salvar o capital, impondo, desse modo, sacrifícios gravosos aos trabalhadores daquele país.

4) A decepção dos cidadãos com uma mudança que não se efetivou já se reflete em problemáticos resultados eleitorais: a vitória dos republicanos para o governo de New Jersey e a terceira eleição do magnata Bloomberg para a prefeitura de NY (curioso, aliás, como a grande mídia global nada diz sobre esse terceiro mandato...), permitem a identificação de uma tendência à volta dos conservadores à maioria legislativa no próximo ano, o que, sabe-se, seria problemático, senão explosivo.

Onde a mudança? Onde a virada histórica? Um ano se passa daqueles momentos de euforia e, até aqui, apenas banqueiros ou a indústria bélica encontram razões para celebrar.

 



Escrito por Socialista e Democrático às 15h41
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A banalização da violência como semente do totalitarismo

Não! Não se vive neste país em uma poliarquia. Não se pisa sobre solo democrático e respeitador dos direitos civis, a caminhar na trilha suave e inclusiva da modernidade ocidental. Poliarquia, aliás, é um eufemismo para escamotear o contraditório Estado liberal, onde a dominação aliena e reifica o que deveriam ser sujeitos autônomos, racionais e iguais. A modernidade ocidental, cuja aurora feroz tão bem identificou J. Chasin, longe está de alcançar seus propósitos emancipadores e, ao menos enquanto restar submetida a relações de dominação mediadas pela categoria capital, terá de ser associada a um "projeto inacabado". Com efeito, aqui, na periferia, "certo ocidente", "extremo ocidente", região dependente,  tudo é peculiarmente dramático.

É aqui que uma turba de centenas de jovens estudantes persegue uma pessoa humana e organiza profana procissão do culto de barbárie machista. É aqui que um vestido curto enseja atos de humilhação, execração pública... Terror. De modo igualmente dramático, é neste país, onde se diz que o machismo estaria superado ou minorado, que até mesmo as manifestações de solidariedade à vítima da catarse neo-fascista na Uniban tendem a se revelar homofóbicas, ou a reproduzir, com outra sintaxe, o idioma da violência de gênero.

Contam-se aos milhares os comentários em sítios como youtube que objetam a crueldade perpetrada contra uma aluna humilhada em decorrência de um vestido curto, que se expressam em sentenças como "ora, o que é bonito é para ser mostrado...", ou "apenas gays não gostam de vestidos curtos". Em suma, entre os agressores covardes e muitos (quase todos) dos seus opositores, um traço sociológico permanece constante: a intolerância, a redução da mulher à categoria de objeto ou, sob o mesmo ethos de banalização da violência, a homofobia. O evento ocorrido na Uniban não se trata de um episódio atípico ou raio de céu azul em um país civilizado e democrático. 

Segundo dados repassados à redação deste blog pela Profa. Marlise Matos, coordenadora do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre a Mulher - NEPEM, da UFMG, mencionando informações do Global Gender Report "Brasil cai 15 posições de 2006 para cá, no auge do governo Lula. World Economic Forum divulga The Global Gender Report 2009, analisando a desigualdade entre homens e mulheres em 134 países. Brasil fica em 82ºlugar, quase igual à Bolívia, perde para os países da América do Sul e amaior parte da América Latina além de Filipinas, Lesotho, Sri Lanka,Mongólia, Namíbia, Uganda, Gâmbia, Gana. Em 2006 estava em 67º, em 2007estava em 74º e em 2008 em 73º." É o país onde, segundo informa o jornalista Juca Kfouri, o governador do Estado de Minas Gerais, Aécio Neves, teria agredido a namorada em público.

É o mesmo país onde os presos continuam a ser, sistemática e institucionalmente, torturados. É o país onde um genocídio de pobres tem lugar, como demonstram os recentes episódios em favelas cariocas. Estamos em guerra. A classe média entediada e a burguesia cruel parecem não conceder tréguas no extermínio dos pobres, na sujeição das mulheres, na exclusão de negros e homossexuais. Mata-se como se mata em um regime totalitário. Humilha-se como se humilha onde há apedrejamentos. Tortura-se como se tortura sob ditaduras. E cala-se a mídia contrária ao governante (vide Minas Gerais) como são calados os divergentes em regimes de exceção.A banalização da violência e a negação da condição de sujeito ao outro são o embrião do totalitarismo que, ao menos neste lugar, parece encontrar terreno adequado para crescer.

 

 

 

 



Escrito por Socialista e Democrático às 01h24
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